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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A mosca

Com a luz do sol a penetrar por entre o vidro das janelas, é possível saber que lá fora é verão e faz calor. Do contrário, só se poderia imaginar, já que dentro a temperatura beira os menores graus da escala Celsius. Uma mosca voa agoniada pela sala, batendo repetidamente no vidro que mostra o mundo acalorado lá fora, tentando assim inutilmente escapar do frio que não lhe é natural.


Eu mesma muitas vezes me identifico com essa mosca, não em relação a uma situação climática desfavorável, mas em relação a diversas situações angustiantes. Muitas vezes me vejo (e, acredito, muitos outros também) desesperada a lutar contra uma barreira invisível que me permite enxergar meu objeto de desejo, mas cujo caminho para lá chegar não consigo distinguir. Saber o que queremos muitas vezes é difícil, mas uma vez que ultrapassamos esse obstáculo, descobrimos muitos outros pelo caminho. É muito mais fácil bater de cara no vidro do que descobrir um caminho que nos leve para onde queremos ir.


A mosca sumiu. Das duas uma: ou encontrou seu caminho, ou desistiu da vida.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Inspiração

30/09/2011


Quanto mais eu a persigo, mais ela me escapa. Inspiração é coisa fugaz, não é fácil de ser capturada. É preciso estar em condições muito favoráveis para que ela se chegue sem ir embora rapidamente. Tais condições são:


- ter papel e caneta sempre à mão
- estar em contato com elementos inspiradores (natureza, música, livros, sentimentos, etc.)
- ter a mente aberta para que entrem toda a sorte de pensamentos


Aí então é capaz que uma inspiração se faça presente, mas raramente ela vem materializada diante de nós. É como um enigma que temos que decifrar. Como manifestá-la é a pergunta mais problemática. Já perdi muitas inspirações por não conseguir decifrar o modo que deveria utilizá-la. Senti o sopro artístico sobre mim, senti que algo de bom sairia se meus dedos se pusessem a escrever. Mas no mesmo instante perdi todas as palavras que conhecia e não soube como expressar a inspiração que me dominara. Aos poucos, sem meio em que pudesse se materializar, vi a energia criativa se esvaindo, indo embora para outro canto, para outro artista mais bem preparado.


Desde então a inspiração me sorri poucas vezes, e nas mais inoportunas, quando estou ocupada com outros assuntos, distraída com meus sentimentos. Tento rabiscar qualquer coisa que me vem à mente, mas não consigo ir adiante – é difícil escrever em um ônibus em movimento, ou mesmo quando se está andando. Foi-se o tempo em que meus sentimentos mais simples conseguiam despertar cargas e mais cargas de inspiração, impulsionando meu cérebro, minha escrita, traduzindo toda essa energia criativa em belos poemas e contos. Agora mal consigo terminar uma história, pequena que seja, e meus poemas não passam da primeira estrofe. Meus sentimentos já não me dizem nada, e desconfio até que andam mesmo adormecidos, anestesiados.


E quem não sente não escreve.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Internet (ou You've Got Mail)

Este texto é um parênteses do texto anterior (Telefone).

A internet é uma coisa poderosa, dominadora. Praticamente substitui o telefone. Praticamente. Porque você pode estar conectado a um programa de bate-papo, junto com várias pessoas que você conhece, e não falar com nenhuma delas. Você sabe que elas estão ali, e isso te consola. Mas não significa que vai realmente falar com elas. Ou que elas vão falar com você. A menos que se tenha muitos assuntos com uma pessoa, todos os dias, o tempo todo, você só vai falar com ela o extremamente necessário. Mais ou menos como o telefone. Só que o telefone já deixou de ser um meio facilitador de conversas. Só se utiliza o telefone quando é extremamente necessário falar com alguém sobre algum assunto específico. Hoje em dia todo mundo tem celular, mas eles tocam cada vez menos. As pessoas se comunicam cada vez mais por escrito - SMS, e-mails, bate-papos da internet - do que por voz (a não ser as pessoas que usam programas como Skype, mas eu não conheço ninguém que faça isso com regularidade). A menos quando se encontram fisicamente.

É quase como voltar no tempo. A diferença é que as pessoas passam grande parte do tempo sentados na frente de um computador, e não numa escrivaninha escrevendo cartas à mão. O problema do computador é que as respostas são imediatas. E você tem que ficar na frente dele escrevendo e respondendo infinitamente. A vantagem das cartas é que você tinha que esperar até o destinatário responder. E enquanto se esperava, tanta coisa podia ser feita: passeios no parque, leituras, trabalho atrasado... tanta coisa! Mas ficamos trancados, em casa, na frente de uma tela mágica. Socializando no mundo virtual em vez de socializar no mundo real. Para alguns as redes sociais são um meio de acabar com a solidão. Pra mim é justamente o contrário. Fico pensando o quanto poderia aproveitar melhor se não estivesse em casa comendo chocolate e me afogando (em vez de surfando) na internet.

Mas no fim, a gente sempre escolhe o caminho mais fácil. Melhor apostar na certeza frágil de uma companhia distante que na incerteza de um laço forte e verdadeiro no mundo que existe fora da gente. É tão confortável viver dentro da gente. Mas sei que não é a maneira mais corajosa de se viver. E sem dúvida é a mais solitária.

Já esqueci porque escrevi tudo isso. Acho que eu só estava solitária e resolvi lançar esse texto no vazio, sem a mínima pretensão ou o desejo de receber uma resposta. Então, até mais tarde, vazio.

Telefone

Me ligaram esses dias e eu não estava em casa. Não deixou recado, nome ou telefone pra ligar de volta. Quem me avisou disse que a pessoa ligaria de volta e tinha voz de menina, devia ser uma amiga. Mas não ligou de volta. Nem tentou o celular. E nenhuma amiga me procurou desde então pra dizer alguma coisa. Uma coisa tão importante que ela se incomodou em ligar pra minha casa - porque hoje em dia as pessoas de 20 anos não usam o telefone pra falar com os amigos, a internet existe pra isso.

Mas em algum lugar eu tenho uma amiga que ainda liga pra minha casa pra falar comigo. E se esquece de retornar a ligação. Talvez o assunto não fosse importante. Mas eu teria ficado feliz de falar no telefone com alguém, pra variar.

Como fiquei agora, ao receber um telefonema de uma amiga identificada no celular. Só queria me pedir um favor. Mas eu falei com ela com um sorriso pendurado de orelha a orelha. E é este sorriso que vai me sustentar ao longo de um dia solitário.

Mas quem é realmente solitário quando se tem amigos?

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ósculo furtado

Ou ele me ama ou me quer. Mas talvez ele me queira e me ame. Ou ele me queira e não me ame. Talvez ele nem me ame nem me queira. Eu não o amo, mas o quero. E ele, me ama? Ou me quer? Ou nenhum dos dois? Mas por que dar sinais então? Pra dar a ilusão de querer mesmo sem querer? Porque quer mas não sabe que quer? Porque ama e não sabe dizer? Porque quer e não ama e não quer dizer por quê? Nem ama nem quer, só quis... porque quis?

Um beijo significa tudo e tão pouco ao mesmo tempo.

Envolve tantas questões que interpretá-lo faz perder o sentido original.

Mas pra quê serve um beijo, afinal?




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Sábado, 21 de maio, 00:17




Descobri. Não sozinha, mas descobri.



Beijo não serve pra nada.

Beijo é um acontecimento.

Beijo pode significar muitas coisas: amor, carinho, desejo... e nenhuma delas também. Mas aí esse tipo de beijo nem vale a pena lembrar.


Mas o mais importante é que beijo... não diz nada.

Serve praqueles momentos que se tem muito a dizer mas... melhor não.

Momentos até em que não se deve mesmo dizer nada.

Os sentimentos podem se perder na enxurrada de palavras.


É.



Pra dizer o que não precisa ser dito com palavras.

Pra isso existe o beijo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Outra

Alguém roubou minha identidade. Passou-se por mim e virou tudo de cabeça pra baixo. Não fui eu, não fui eu, tento explicar. Mas a outra é exatamente igual a mim. Tem os mesmos traços, os mesmos gestos. O mesmo cabelo, os mesmos olhos. O mesmo sorriso de satisfação. E no entanto é diferente. Não sei qual das duas parece mais feliz. Se é que é possível chamar de felicidade o que separa uma da outra. Não é isso. É outra coisa que me separa de mim mesma. Uma coisa que não conheço. Algo que não sei decifrar. E enquanto tento descobrir o que deu errado, como consegui me dividir em duas e como fazer para voltar a ser apenas uma, a outra continua solta. Livre, sem limites, sem escrúpulos. Fazendo tudo o que tem vontade. Dizendo tudo que eu tenho vontade. Correndo tão veloz qué é impossível alcançá-la e aprisioná-la novamente. O sorriso dela triunfa sobre a minha apatia, me mostra tudo o que eu quero ser e não consigo. Mas não se pode ser tudo, e isso ela não entende. De alguma forma, na divisão que foi feita, ela ficou pura emoção, e eu pura razão. Ela jamais vai me compreender. Eu jamais serei como ela. Não posso, nem devo. Mas como quero. E como temo. Temo ser ela e não ser mais quem sou. Temo ser eu e não poder mais ser ela. Que destino cruel antecipo para nós duas! Uma jamais será feliz, a outra será sempre infeliz. Separadas buscamos apenas a ilusão de ser, o almejo, o desejo, de algo que nem sabemos o quê. Necessito ser inteira novamente. Mas onde está minha outra metade? Por que fugiu de mim? Preciso costurá-la de volta em meu coração, como fez o menino que não queria crescer com sua sombra. Só assim poderei existir. Só então posso voltar a sorrir.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Como esquecer

Certas coisas não vem com receita, mas isso não impede que a gente tente criar uma. Esquecer, por exemplo. Alguns dizem que a receita é bem simples, é só parar de lembrar - e sumir com tudo que lembre o elemento a ser esquecido. Mas todo mundo sabe que receitas não são cem por cento confiáveis. Mesmo seguindo-as à risca, pode ser que algo dê errado e não se atinja o resultado. Às vezes tem a ver com os ingredientes, outras vezes com o tempo de preparo. Ou ainda com o próprio executor, nem todo mundo foi feito pra fazer bolos. Ou para esquecer coisas importantes.

É engraçado a dinâmica existente entre lembrar e esquecer. Às vezes esquecemos aquilo que não devemos e lembramos daquilo que só nos faz mal. Não existe lógica no que concerne os nossos sentimentos e emoções. Mesmo que a memória seja teoricamente algo racional. Mentira. Tem tudo a ver com irracional também.

Acho que, por mais que doa lembrar daquilo que queremos esquecer, talvez seja necessário, para que um dia possamos perceber no meio disso tudo, algo que valia mesmo a pena ser guardado, e ficarmos aliviados por não termos jogado tudo fora.

RECEITAS PARA LEMBRAR:**

- Escreva um diário
- Deixe bilhetinhos espalhados por toda parte
- Conte para outras pessoas (de confiança) e para si mesmo de vez em quando
- Feche os olhos e visualize o que deve ser lembrado

RECEITAS PARA ESQUECER:**

- Jogue fora tudo o que faça lembrar (ou esconda de você mesmo em um lugar seguro)
- Apague os vestígios
- Encontre outro objeto afetivo para substituir e parar de lembrar do antigo*

*Talvez este método conduza a um ciclo inacabável de substituição de objetos afetivos por outros com o intuito de esquecer, mas não por isso deixa de ser eficaz.

**Esta esquecedora e lembradora não garante a eficiência de nenhum desses métodos e não se responsabiliza por resultados negativos. Mas ela aceita sugestões.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

(Sem) Explicação

- Não entendo essa sua mania de me mandar SMS sabendo que eu nunca posso responder.
- Já lhe ocorreu que eu talvez não procure respostas?
- Não. Explique-se.
- As mensagens que eu escrevo não tem pretensão de conter um diálogo. São só palavras, coisas que eu penso e queria te dizer, ou dizer a mim mesma, aforismos. Encaro seu celular sem créditos como um poço sem fundo, onde eu jogo uma moeda e não a ouço cair; sei que ela está lá, mas não sei o que lhe aconteceu, se alguém sabe que dela, só sei que eu a joguei, eu a queria lá. É mais ou menos assim. As palavras que te escrevo, mesmo as mais constituídas de sentido, tem sua razão de não serem respondidas. Até porque mesmo quando nos encontramos, você não responde as minhas perguntas.
- É, eu sei. Mas você quer que eu responda? Tem coisas que eu simplesmente não sei o que falar. Acabo me escorando na defesa de não ter créditos e se não me manifesto, pode ser que eu não tenha lido, você não vai saber. Mas você também não me pergunta essas coisas de novo.
- É claro que não. Elas ficam no limbo da sua caixa de entrada. Como eu já disse, eu não procuro respostas. Procuro um meio de expelir essas palavras pra fora de mim, e acho o seu celular bem adequado para essa função. E depois, tem certas perguntas que não merecem, nem devem, ter respostas. Tem tanta coisa que eu poderia te perguntar, assim, cara a cara, mas tenho medo do que você vai responder. Pelas mensagens não corro esse risco. Sei que elas chegam, mas que não terão respostas. Se eu te digo agora, na lata, que te amo, o que você diz?
- Eu...
- Viu? Por isso prefiro as mensagens. Algumas respostas só magoam, não correspondem às nossas expectativas; às vezes nem existem, dependendo da coisa que se diz. Deixe minhas perguntas sem respostas, é melhor assim, pra mim e pra você.
- Como pode ser melhor? Eu juro que não te entendo.
- Eu sei, querido, eu sei. O dia em que eu encontrar alguém que me entenda me caso com a pessoa. Mas é provável que ela não goste do que entender de mim e queira distância. É por isso que eu gosto de você, assim, todo confuso, cheio de teorias, tentando decifrar meus segredos. Deixe as coisas como estão e o universo não vai explodir.
- ... Mas...
- O quê?
- E se eu quiser que meu universo exploda?
- ?
[beijo]

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Caio de pé

Eu nunca amo pela metade, sempre por inteiro.
Meus dois pés estão sempre fora do chão. A cabeça? Nas nuvens.
Me entrego de uma vez só, nua, sem pudores, saltando sobre o desconhecido.
Sei que assim o impacto é maior, mas a queda tem qualquer coisa de bonito e triste.
Coisas tristes tem a estranha mania de serem bonitas e provocarem lágrimas.
Acho que sou como gato, tenho sete vidas (ou até mais). Caio de pé.
Caio, levanto, e me preparo para o próximo salto.
E quem sabe numa dessas não aprendo a voar.
O amor dá asas.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ciúmes

- Sou ciumenta. Não pedi pra ser, mas sou. Sabe, é uma coisa louca... De repente sobe um negócio dentro de mim... Como um fogo se alastrando muito rápido, queimando tudo o que vê pela frente. Uma raiva, um troço, uma vontade de, de... Ai, nem sei. Não fico à vontade quando pegam minhas coisas emprestadas, meus livros então, nossa, empresto com muito peso no coração. E meus amigos, minha família, como tenho ciúmes de todos eles! É só chegar alguém novo ganhando espaço rápido que tenho vontade de esganar! Como ousa roubar assim o meu lugar? Fico louca de ciúmes mesmo! É uma doença, eu sei, eu não devia ser assim... Sabe, é até ridículo, tenho ciúme de coisas que nem são minhas ou mesmo daquelas que já não são mais...
- Hum... Isso quer dizer que eu não posso pegar um pedaço do seu bolo?
- Não, não pode.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Portas e Janelas

Mais uma porta se fechou. Outra janela se abriu.
Quanto tempo mais até que todas as portas e janelas tenham se aberto e se fechado?
Haverão janelas e portas suficientes?
Por que não podem abrir-se ao mesmo tempo?
E o que aconteceria se todas fechassem-se na mesma hora?
Mais uma janela se abriu. E mais à frente outra porta se fechará.
Portas se fecham e janelas se abrem.
E se fosse o contrário?
Portas abrindo, janelas fechando...
Portas são mais fáceis, não precisam ser puladas.
Janelas são sedutoras, te dão um vislumbre do que está por vir.
Quando uma porta se fecha, será pra sempre?
Não existem chaves perdidas pelo caminho para reabri-las?
Gostaria de saber como é viver num mundo de portas que não se trancam e janelas fáceis de se pular.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Sobre Eternidade

Andei relendo uma crônica da Clarice Lispector, "Medo da Eternidade", com alguns amigos. Mais de 24 horas depois, o tema voltou a passear por meus pensamentos, numa conversa com outro amigo.
Aprendemos com a vida que tudo tem prazo de validade. Comida, bebida, cosméticos, remédios, relacionamentos, palavras (quem diz que palavras são eternas, deve pensar sob um outro aspecto: palavras são ditas e não se pode voltar atrás, é verdade; mas elas podem perder o sentido com o tempo, e aí por isso tem validade), sentimentos... Ora, até a própria vida.
Então significa que estamos acostumados com o fim das coisas? É claro que não... O prazo de validade é um fato, mas quem disse que é pra gostarmos disso? Então devemos idolatrar a eternidade, tão rara e efêmera? Não necessariamente...
Como Clarice diz na crônica, o chiclete dura para sempre, mesmo depois que o gosto doce já passou e só restou o grude azedo. Ele é eterno, não acaba nunca, mas não significa que ainda é prazeroso. Veja bem, não digo que a eternidade precisa ser amarga e que tudo o que é bom precisa ter um fim (embora às vezes seja isso mesmo).
Na verdade, o que eu queria dizer aqui é outra coisa. É sobre a duração das coisas sim, mas não em toda a existência delas; é sobre a eternidade em cada momento.
Momentos que são tão prazerosos que mesmo muito depois de já terem passado, tornam-se eternos pela lembrança que deixam. Momentos que podem nunca mais se repetir, e que precisam ser, portanto, eternizados de alguma forma. Momento é coisa tão efêmera que se não for eternizado, passa, é esquecido em seguida e deixa de ter a importância que tinha.
Já quis muito que alguma coisa durasse pra sempre, como todo mundo, e assim também já almejei a vida eterna. Mas olhando pelos aspectos negativos da eternidade, como faz Clarice na crônica, percebo que não quero nada disso de fato. Quero sim viver momentos maravilhosos, conhecer pessoas e lugares encantadores, escrever sobre tudo o que me dá vontade e ser reconhecida por isso.
Nada de lamentar que alguma coisa poderia ter durado mais ou menos, ou que não precisava ter acabado. Tudo dura o que tem que durar, cumpre seu prazo de validade eventualmente. Mas se a alegria se mantém a mesma ao revisitar aquele momento, sem arrependimentos nem mágoas, é só o que importa. O momento já está guardado. Já está eternizado. Pra quê desejar que tivesse durado mais ou menos? Voltar ao passado está fora de cogitação, e se não agradou, não merece a eternidade, pronto.
Pra alguns, só momentos muito específicos merecem a eternidade. Pra mim, bom mesmo é eternizar cada uma das coisas boas que se vive, sem uma hierarquia obrigatória, num caderno de lembranças que vai sendo atualizado a cada novo dia, a cada nova experiência prazerosa.
Assim, as coisas se tornam eternas, ainda que respeitando as regras do prazo de validade. Mas sem amarguinho no fim.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Sei lá.

Às vezes queria não sentir as coisas que sinto. Ser menos do jeito que sou. Mas se não fosse como sou, seria como, seria quem? Acho que não posso fugir de mim.
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Não tenho nada a dizer há alguns dias. Nem sei se estou dizendo algo agora. Mas eu li as coisas que ele escreveu. E pensei nas coisas que ele me escreveu. E nas coisas que eu escrevi e que escrevi pra ele. Não é que tenha sentido saudade. Mas o vazio se acentua mais nessas horas. E não é que eu queira tudo aquilo de novo. Não quero. Mas acho que a gente sempre guarda um lugarzinho praquilo que foi bom. E quando lembra, fica pensando porque acabou. A gente sabe porquê e não se arrepende. Mas fica no ar aquele "e se...?". Fica no ar, mas é só passar um vento que voa longe e a gente logo esquece e volta pra realidade, pro agora, deixa o passado onde deve ficar. E fica feliz de novo.
Então... estou esperando o vento passar.

sábado, 3 de abril de 2010

Bobagens

Elas não podem ser ditas, assim me disseram. Discordo. É possível dizer tantas bobagens numa só frase! Talvez a questão seja: definir o que é bobagem e o que não é. Acho que depende do contexto. Da pessoa que fala e da pessoa que ouve. É assim com todo discurso, na verdade.
 
Mas com bobagens... É mais relativo. O que eu digo pensando ser bobagem pode soar com importâcia para outra pessoa. Ou talvez eu tire algo de extrema relevância do fundo de minha alma que, quando traduzido em palavras, soe como a maior bobagem do mundo. Bobagens são temperamentais.
 
Bobagens são coisa muito especial. Há quem pense que são apenas bobagens, mas não são não. São ricas, tão ricas! Não há nada de bobo nelas. Mas então por que são bobagens? Ora, porque... Porque quando saem de dentro da gente parecem tão frágeis. Tão indefesas. Pedacinhos de nossa alma tímidos demais para serem considerados importantes. "O que está pensando?", "Ah, nada, bobagem". É sempre bobagem. Mas nunca é de fato. Sempre é coisa importante.
 
Bobagem é aquilo que a gente diz com medo de parecer bobo. Já começa justificando: "Olha, é bobagem...". Favor não confundir com besteira ou bobeira: essas me são outra coisa que aqui não cabe explicar. Voltemos às bobagens. Bobagem é subestimada. Ninguém leva a sério. Mas deveria. Bobagens dizem muito.
 
Aliás... Concordo. Bobagens não podem ser ditas. Elas falam por si só. E as minhas dizem que há algo de muito bobo no motivo de eu ter escrito tudo isso. Mas quem disse que bobagem não tem importância? Tem bastante. E é por isso que escrevi. E me sinto assim tão boba.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Happy Ends

Não preciso dizer o quanto sou romântica. Grande parte dos textos deste blog já afirmam isso por mim.
 
O que tenho a dizer hoje não é nada especial, mas algo em que venho pensando a partir de algumas conversas que tive com um amigo. Sempre fui fã dos finais felizes, "happy ends", nos filmes, livros, na vida. Mas começo a pensar diferente agora.
 
Segundo o que aprendi ontem na aula de Linguística, sobre análise de discurso e nível narrativo (não ouso fazer longas explicações pra não correr o risco de dizer besteiras, não sou nenhuma perita), existe sempre um Sujeito (uma pessoa) que busca um Objeto-Valor (meta). No meio de sua busca o Sujeito encontra Anti-sujeitos (obstáculos) e algumas vezes, encontra também um Adjuvante (algo/alguém que ajuda o Sujeito a superar os obstáculos). Traduzindo: pessoas tem metas, mas para realizar essas metas, elas sempre vão encontrar problemas no meio do caminho. Depois que enfrentam os problemas, alcançam a meta. E aí a narrativa acaba. Seria uma espécie de final feliz.
 
Esse esquema funciona para narrativas como contos de fada e novelas, em que as histórias que nos são mostradas são apenas recortes do que poderia ser a realidade. Na prática, o final feliz não existe. Ou melhor, deixa de existir assim que se alcança o objetivo. Porque aí passamos a traçar novas metas e a arranjar novos problemas para resolver até alcançá-las. E o ciclo nunca termina. Porque se não temos objetivos na vida, somos pessoas sem problemas, e pessoas sem problemas são deprimidas e cometem suicídio.
 
Ok, agora deixando o drama e a Linguística de lado: o que eu realmente quero dizer com tudo isso... É que não acredito mais em finais felizes. Porque o final feliz significa o fim da vida; não uma morte propriamente dita, mas o fim dos acontecimentos. E uma vida vazia de acontecimentos é uma vida morta, não é vida, é anti-vida. Seria como parar de escrever um livro na metade, deixando as outras páginas todas em branco.
 
A morte é o fim da vida, e não é um fim feliz (via de regra). Por isso não podem existir finais felizes. Será que estou fazendo sentido? Será que toda essa filosofia está chegando a algum lugar?
 
Por fim apresento minha mais nova crença. Deixei de acreditar em finais felizes pra acreditar em começos felizes. Porque depois de cada fim, sempre vem um novo começo. E nesse caso o fim não precisa necessariamente ser bom ou ruim. Ele dá espaço para o começo de algo novo, diferente, uma nova meta, com novas etapas e novos problemas. E se o começo for feliz, ainda que sofrido (porque os problemas sempre existirão para nos atrapalhar), não tem como a história toda não ser feliz também.
 
O importante mesmo não é como uma história termina, e sim como ela começa e continua. Porque se for boa mesmo, não acaba nunca.

terça-feira, 9 de março de 2010

Sempre

Existem pessoas que guardam os sentimentos só para si. Que não se entregam facilmente aos braços da paixão. Que se mantêm fechadas o quanto podem. Eu sou o oposto. Me apaixono com a mesma facilidade com que tropeço, – e isso não é difícil de acontecer – quando vi já estou enfeitiçada. Não sei viver sem ter alguém para amar todos os dias. Ou pelo menos brincar de amar. Não sei viver sem me apaixonar.

Às vezes tento recusar o vício, mas sempre tenho uma recaída. A paixão vem ao meu encontro sem que eu possa realmente evitar. Quando vi já estou apaixonada. E o que mais posso fazer se não me entregar completamente? É inútil lutar contra, melhor abraçar a euforia e curtir as fantasias.

É claro que não estou isenta dos riscos. Quase sempre tenho o meu coração partido. Mas isso não é problema, coração é consertável, o meu já está cheio de remendos. E não tenho medo de mais um tombo, mais uma decepção, mais uma rasgo no tecido, mais uma rachadura no vidro. Não se entra num jogo pensando na derrota. Penso sempre na vitória, um outro coração para cuidar e chamar de meu. E um outro alguém pra cuidar do meu próprio.

Sei que tudo parece bobagem e quanto mais maneiras diferentes arranjo para dizer, mais bobo vai ficando. Sou romântica e não sei viver sem amor, sem buscar amor, sem respirar amor. Seria tão mais fácil aprender a viver sem ele, mas qual a graça da vida se ela não for difícil? Não há prazer maior em ter um sentimento correspondido.

E assim vou seguindo. Sempre apaixonada, quase sempre feliz.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Delícias e Chatices de Verão

- Passar o dia na praia com amigos
- Se refrescar com um picolé de fruta geladinho
- Ficar na rua até às sete com o sol ainda brilhando
- Relaxar e aproveitar as férias
- Mergulhos e brincadeiras na piscina
- Viagens com amigos

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Chatices de verão:
- Levar o maior caldo da sua vida nas ondas do mar
- Ficar toda vermelha e ardida por não ter passado protetor solar suficiente na praia
- Morrer de calor porque o ventilador do quarto não dá vazão.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Sou poeta

Não sou filósofa; há muito que desisti de pensar bem no sentido de cada palavra que brota dos meus dedos quando escrevo. Me cansava. E não parecia natural.
 
Prefiro me pensar como médium: as palavras simplesmente escorrem pelos meus dedos sem que eu tenha total controle delas. Quando vejo já estão lá. E é bem melhor assim. Quase sempre gosto do resultado.
 
Mas me espanto quando me fazem perguntas sobre o que escrevo. Não sei responder. Não sei explicar o que me fez querer dizer determinada coisa. Simplesmente escapou pelos meus dedos de manteiga. Acontece.
 
Os poetas não explicam o que escrevem; simplesmente escrevem. O importante é botar pra fora. Cabe aos outros filosofarem sobre aquelas palavras.
 
Ao poeta, cabe apenas: escrever.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Lentes Cor-de-rosa

Eu tenho um problema. Acho que é um defeito de nascença ou uma disfunção adqurida ao longo dos meus 19 anos por influência de livros e filmes. Sou romântica.
 
Isso é doença? Não. É grave? Depende. Meus amigos me repreendem às vezes por ser romântica demais. Ora, demais que o quê? Que o normal permitido, aceito? Não faz muita diferença. Nunca achei que fosse ser apenas uma pessoa normal.
 
Vejo o mundo por lentes cor-de-rosa. Tudo é possível no universo em que vivo. Sou capaz de enxergar romances em praticamente qualquer lugar. Desde um desenho animado esportivo até diálogos de um livro didático de francês.
 
Uma troca de olhares entre estranhos na rua pode virar uma grande história de amor. Um beijo pode fazer duas pessoas se apaixonarem irremediavelmente uma pela outra. Não existem amores incorrespondidos: eles só o são porque um não sabe que o outro o ama; quando ambos sabem, os sentimentos revelam-se mútuos e pode-se escrever um "felizes para sempre" na história deles.
 
Isso tudo são mentiras que conto a mim mesma na esperança de que um dia se tornem reais? Talvez. O que nunca foi idealizado jamais será realizado, é o que eu penso. Que mal faz sonhar? Deixa tudo mais alegre, mais bonito, mais cor-de-rosa... A vida pode ser exatamente do jeito que ela é. Ou ela pode ser assim só que muito mais feliz, se acreditarmos nas surpresas do amor.
 
Por isso sou romântica. Demais, até. Não significa que eu não me desaponte de vez em quando; que eu não sofra com o amor; que às vezes eu acabe me cegando e não enxergando a verdadeira realidade. Mas se fugirmos do amor, nunca saberemos o quão maravilhoso ele é. Por isso estou sempre com os olhos abertos, sempre buscando e identificando possíveis romances.
 
É claro que podemos tentar agir com cautela. Mas é difícil pôr freios nos sentimentos apaixonados. Tão difícil que ainda não sei se aprendi. Ainda me machuco, confundo as coisas... Mas é assim que se aprende, não é? Caindo e levantando em seguida.
 
Porque mesmo com tantos altos e baixos, desilusões, tristezas... Ainda é muito bom acreditar que o amor é possível. Que a vida real pode ser como num filme romântico. Que nós somos personagens das mais lindas histórias de amor. E somos nós que as escrevemos. Todos os dias. Quando encaramos a vida com olhos apaixonados. Por trás de lentes cor-de-rosa.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Poderosa

Descobri que tenho um poder. Não é coisa de super-herói, não vou sair por aí salvando o mundo; mas é algo bastante espetacular, modétia à parte.

Eu tenho o poder de criar mundos inteiros, repletos de seres, cores, sons, e recheá-los de histórias, dar-lhes vida. Mas isso eu já sabia que podia fazer. O que descobri é ainda melhor.

Posso transformar o mundo ao meu redor. Já disse, não sou nenhuma Mulher-Maravilha; mas posso salvar o mundo em que vivo de todas as coisas que eu considerar terríveis. Não sou dona de um reality show de extreme makeover; mas posso transformar pessoas ‘apagadas’ em protagonistas ilustres; posso escolher os personagens da minha vida e pintá-los como eu bem quiser.

Posso recriar; reinventar; reutilizar tudo aquilo que já existe, sob uma nova luz, um novo olhar. Posso fazer às coisas à minha própria maneira. Sabe como?

Escrevendo.