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sábado, 14 de abril de 2012

É noite

É noite, amor
vem ficar
perto de mim
vem dissipar
o sonho ruim
e me deixar
dormir enfim.

É noite, amor
vem me dar
um beijo
vem matar
o meu desejo
e me fazer
um pão-de-queijo.

É noite, amor
e a lua está linda
a chuva é bem-vinda
e minha tristeza, finda.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Inverno

Sobretudo o frio. Era o que mais dominava seus pensamentos naquela noite branca. Na varanda da casa, coberta dos pés à cabeça de todas as peças de roupa que possuía, ela enfrentava o vento gélido e ignorava os flocos de neve que atingiam seu rosto. Sozinha na noite, ela esperava. Mas não era uma espera qualquer. Não tinha um propósito. Sabia que tinha que esperar, pois alguma coisa aconteceria. E isso era tudo.

O frio também não deixava espaço para muitos outros pensamentos. Ela concentrava todas as suas energias em imaginar a temperatura daquela noite, só que ao contrário: 29 graus positivos, 29 graus positivos, calor, suor, praia. Era como um mantra. Imaginava uma praia de areia fervilhante com palmeiras por todo canto. Mas bastava que abrisse os olhos e contemplasse a imensidão de neve à sua frente para que se esquecesse completamente do calor e do sol. A rua, a calçada, a grama, tudo era um só, um todo único e branco, muito branco, profundo, limpo, novo, macio. Gelado. No lugar de palmeiras, pinheiros. No lugar de barracas de praia, tímidas casinhas brancas e beges, coladas umas às outras, como que tentando se esquentar. Nem o concreto aguentava o frio, mas ainda assim ela esperava, por algum sinal, um qualquer coisa que surgiria do meio da tempestade.

Aos poucos foi tomando forma. Uma figura esguia e negra, bem ao longe, quase imperceptível no meio da nevasca. Foi ficando cada vez mais nítida à medida que se aproximava, caminhando a passos confiantes e deixando suas pegadas sobre a neve fofa. Ela reconheceu a figura, e pôde então se lembrar do que esperava. Quando ele subiu as escadas da varanda, ela sentiu seu rosto se degelando aos poucos, fazendo surgir um sorriso. Ele trazia outro sobre os lábios e um pacote nas mãos enluvadas.

"Pensei que tivesse esquecido", ela disse, tomando o pacote nas mãos.
"Mesmo com toda essa neve, não esqueceria de um pedido tão importante. Abre."

Ela abriu o envelope pardo e de dentro saíram resquícios de sol, céu azul, palmeiras e areia quente. Retratos de um verão inapagável, mesmo que tão distante.

"Feliz verão", ele disse.

Eles sorriram com a lembrança e o inverno pareceu derreter.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Encarando o vazio e buscando as palavras certas que se encontram escondidas em incertos destinos desconhecidos enquanto o tempo passa por mim e me encara com seus minutos sérios.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Noite fria

A noite clara se fez turva em sua presença
e seu sorriso derramou o pranto
seu olhar espalhou o espanto
e seu toque estremeceu o canto
da moça que trajava o manto.


Ele então pediu licença
e beijou-lhe os lábios brandos
cravou-lhe os dentes brancos
na pele alva, aos solavancos
e ela cedeu aos seus comandos.

(Sangue)

Debaixo da carne tensa,
tremia ela de revolta
e o vampiro à sua escolta
bebia o sangue à sua volta.

A noite, agora tensa,
o viu sumir pela porta.
E o frio que corta,
acolheu a moça morta.

(Exangue)

terça-feira, 1 de março de 2011

Loba

Em noites como essa te amo uma imensidão.
Mas quando a lua se completa, te devoro sem perdão.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Você não esperava, eu sei que não, não esperava nenhum momento dessa noite, você, que acha que sabe tudo sobre mim. Não, você não sabia o que estava por vir, não sabia o que eu ia pedir. Pedi uma cerveja e você se espantou, logo eu, que não bebo nem refrigerante. Mas eu pedi uma cerveja e você se assustou, mas não deixou por isso mesmo, pediu mais um copo e bebeu, comigo, brindou. Brindamos, a quê, não me lembro faz tempo, umas horas, talvez, mas muito mais no calendário do álcool. Brindamos à vida, deve ter sido isso, e sorrimos, bebendo. Você me olhou, ainda sem acreditar, eu ali, naquela virgindade alcóolica ainda, tão menina, tão menina, mas tão moça, tão moça. Você não viu o tempo passar, você não viu a idade chegar, e agora olha só, a distância diminuiu, você e eu, ainda não estamos no mesmo lugar nem nunca vamos estar, mas já está mais perto, não há como negar. Então pare de fugir de mim, pare de ser tão assim.

(mas nunca deixe de ser assim, porque é como gosto de você, tão assim, tão doidim, tão lindim, que é como eu quero você, todinho assim, pra mim)
- Será que vale a pena?

Você me pergunta, e eu respondo: sempre vale a pena quando a alma não é pequena. Sei que o verso não é meu, mas que importa, somos todos poetas, vivemos todos do mesmo ganha-pão, as palavras, essas ingratas, que muitas vezes nos põe no chão.

Vale a pena, eu te digo, por que não valeria? Somos jovens, apesar da sua insistência em se clamar mais velho, vá lá, tudo bem, você é velho, mas e daí? Eu digo que nós dois, juntos, somos jovens e podemos o que quisermos.

Você pergunta por que vale a pena e eu digo simplesmente que vale e pronto. Dói tanto assim? Não dói. É tão difícil? Não é. Vai mudar nossas vidas completamente? Só se a gente quiser.

As coisas não precisam ser assim tão difíceis, enroladas, complicadas. Elas podem ser exatamente do jeito que são. Uma flor é uma flor e ponto. Um beijo é um beijo e ponto. Não é preciso ir além disso.

Você me pergunta se vale a pena. Eu digo que vale. Eu grito que vale. É claro que vale. Meu amor, se a vida não vale a pena, de que adianta eu estar aqui escrevendo tudo isso às 01:55 da madrugada? Vamos lá, deixe de ser temeroso, viva e pronto, não faça perguntas.

Beba este último copo comigo e vá para a cama, sem perguntar se a alma é pequena e se viver vale a pena. Se eu digo que vale, assim, agora, acredite, é a mais pura verdade.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Ontem/Hoje

É noite de novo hoje como foi ontem. Mas ontem não é como hoje. Hoje só tenho um copo nas mãos e uma dor de cabeça que não passa. Ontem eu tinha seus cabelos, seus lábios, à minha disposição. Hoje um cigarro entre os dedos. Ontem um riso entre beijos. Ontem você me sorria. Hoje minha cama está fria.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Sobre Eternidade

Andei relendo uma crônica da Clarice Lispector, "Medo da Eternidade", com alguns amigos. Mais de 24 horas depois, o tema voltou a passear por meus pensamentos, numa conversa com outro amigo.
Aprendemos com a vida que tudo tem prazo de validade. Comida, bebida, cosméticos, remédios, relacionamentos, palavras (quem diz que palavras são eternas, deve pensar sob um outro aspecto: palavras são ditas e não se pode voltar atrás, é verdade; mas elas podem perder o sentido com o tempo, e aí por isso tem validade), sentimentos... Ora, até a própria vida.
Então significa que estamos acostumados com o fim das coisas? É claro que não... O prazo de validade é um fato, mas quem disse que é pra gostarmos disso? Então devemos idolatrar a eternidade, tão rara e efêmera? Não necessariamente...
Como Clarice diz na crônica, o chiclete dura para sempre, mesmo depois que o gosto doce já passou e só restou o grude azedo. Ele é eterno, não acaba nunca, mas não significa que ainda é prazeroso. Veja bem, não digo que a eternidade precisa ser amarga e que tudo o que é bom precisa ter um fim (embora às vezes seja isso mesmo).
Na verdade, o que eu queria dizer aqui é outra coisa. É sobre a duração das coisas sim, mas não em toda a existência delas; é sobre a eternidade em cada momento.
Momentos que são tão prazerosos que mesmo muito depois de já terem passado, tornam-se eternos pela lembrança que deixam. Momentos que podem nunca mais se repetir, e que precisam ser, portanto, eternizados de alguma forma. Momento é coisa tão efêmera que se não for eternizado, passa, é esquecido em seguida e deixa de ter a importância que tinha.
Já quis muito que alguma coisa durasse pra sempre, como todo mundo, e assim também já almejei a vida eterna. Mas olhando pelos aspectos negativos da eternidade, como faz Clarice na crônica, percebo que não quero nada disso de fato. Quero sim viver momentos maravilhosos, conhecer pessoas e lugares encantadores, escrever sobre tudo o que me dá vontade e ser reconhecida por isso.
Nada de lamentar que alguma coisa poderia ter durado mais ou menos, ou que não precisava ter acabado. Tudo dura o que tem que durar, cumpre seu prazo de validade eventualmente. Mas se a alegria se mantém a mesma ao revisitar aquele momento, sem arrependimentos nem mágoas, é só o que importa. O momento já está guardado. Já está eternizado. Pra quê desejar que tivesse durado mais ou menos? Voltar ao passado está fora de cogitação, e se não agradou, não merece a eternidade, pronto.
Pra alguns, só momentos muito específicos merecem a eternidade. Pra mim, bom mesmo é eternizar cada uma das coisas boas que se vive, sem uma hierarquia obrigatória, num caderno de lembranças que vai sendo atualizado a cada novo dia, a cada nova experiência prazerosa.
Assim, as coisas se tornam eternas, ainda que respeitando as regras do prazo de validade. Mas sem amarguinho no fim.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Relato de um fato imaginário com resquícios de vinho tinto

Aconteceu. Não lembro bem se foi no meio das escadas ou dentro do elevador; não importa, na verdade. Só sei que com certeza foi em um desses dois espaços de transição, como sempre imaginei que seria, bem no meio, entre uma coisa e outra (que no fundo, não é uma coisa, nem outra).


Mas gostei assim mesmo. Desse ser e não-ser. Dessa certeza e incerteza. Desse amar e não-amar. Desse meio-termo que inventamos desde o início, “pra não complicar”.

No fim, sei que aconteceu. Enfim. E não sei se foi bom ou ruim. Se foi melhor ou pior. Se cumpriu as expectativas. O que importa, de verdade, é que já não é mais alguma coisa imaginária, impraticável, indizível, impossível.


Pronto. Aconteceu.


E agora? E agora… Agora nada. Agora espera. Agora deixa. Agora já foi.

Já passou…

Mas se passar de novo, não faço objeção.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Heartbreaker

Eu sentia o seu perfume do outro lado da pista de dança. Eu via os olhares que você me lançava, e depois como mexia no cabelo e fingia rir, desviando o olhar, só pra disfarçar. Eu sabia que você me queria. Sabia que não havia mais ninguém e que você tinha colocado aquele vestido preto justo só pra mim. Eu sabia de tudo isso, mas ignorava. Ou pelo menos tentava ignorar.

Porque você nunca foi mulher de ser ignorada. E era por isso que você me provocava daquele jeito. Você sabia que eu era incapaz de resistir ao seu olhar de assassina de corações, de heartbreaker. Porque era isso o que você era. O que você fazia. Você seduzia e colecionava corações de homens como eu. Completamente indefesos diante do seu sorriso charmoso e da doçura das suas palavras. E depois de apaixonar cada um desses corações, cansava-se da brincadeira e simplesmente livrava-se deles, desfazendo-os em pedaços tão pequenos que depois era quase impossível colocar tudo de volta no lugar. E nunca ficava totalmente bom.

Mas naquele dia, não, naquela noite... Naquela noite eu te ignorei. Ignorei até você se cansar. Até você se irritar. Até você me olhar daquele jeito molhado, quando seus olhos já não aguentam mais segurar as lágrimas, e sair da festa, sozinha, quase correndo, sem dar explicação.

E quando eu fui atrás e te encontrei lá fora, encolhida de frio, sentada quase agachada no meio-fio, tentando consertar a maquiagem borrada no espelhinho portátil, você me viu no reflexo, me viu atrás de você, e fechou o espelho com tanta violência e se virou pra mim de um jeito tão assustado que parecia que eu é que era o assassino nessa história. E então você soltou um suspiro e anunciou minha vitória, com a boca amarga. Eu peguei seu rosto em minhas mãos e disse pela milésima vez que aquilo não era uma competição, que não tínhamos apostado nada. Na verdade, me corrigi, tínhamos apostado tudo, mas os dois tinham saído vencedores. E quando você me olhou daquele jeito infantil de que entende mas que não acredita no que ouviu, eu sorri e acariciei sua bochecha com o polegar. Então você sorriu e socou de leve o meu ombro, mas antes que isso levasse a uma guerra de tapas e cosquinhas, eu te beijei.

E nenhum de nós teve seu coração despedaçado.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Palavras perdidas na noite...

E tudo é silêncio, noite, escuridão.
Sorriso triste de quem lembra feliz.
Um riso, um olhar, um beijo.
Tudo some, se esconde, se perde.
 
Onde estou, não sei ser,
quem sou eu, quem é você?
O que faz, o que traz?
Me perdi, me esqueci.
 
E tudo é noite, escuro, vazio.
Silêncio quebrado por voz musical.
Um suspiro, um afago, uma lágrima.
Tudo velado, escondido, enegrecido.
 
Que sinto agora na penumbra
que não me sinto vazia?
Que vejo agora na sombra
que não vejo de dia?
 
Mãos, dedos, toques,
Pálpebras, cílios, olhos
Boca, lábios, dentes
Música, som, voz.
 
Silêncio que canta,
silêncio que grita,
silêncio que chora,
silêncio que ri.
 
Ah, nessa noite escurecida,
ergo os braços e danço até cair.
Danço até o amanhecer,
só pra me despedir de você.

domingo, 4 de abril de 2010

Telefonema

- Oi, ta acordada?
- To... [bocejo]
- Desculpa, você tava dormindo... Eu ligo amanhã.
- Bobagem. Já acordei mesmo. O que é?
- Ah. Não é nada. É só... Volte a dormir, amanhã nos falamos.
- Não, diz. To ouvindo.
- É que... Ah, é bobagem...
- Fala. Agora.
- Ta bom. Vai até a janela.
- Ok... To chegando na janela... Ah!...
- É.
- É tão... Linda! Nunca vi assim, tão grande, tão redonda.
- Nem eu.
[pausa]
- Hum.
- É... Bem, era isso. Queria que você visse. Só. Pode voltar a dormir.
- Obrigada. [sorriso]
- Pelo quê, pela lua? De nada...
- Não. Por ter ligado.
- Ah... É... De nada.
- Vou dormir. Boa noite.
- Boa noite... [suspiro]

sábado, 3 de abril de 2010

Bobagens

Elas não podem ser ditas, assim me disseram. Discordo. É possível dizer tantas bobagens numa só frase! Talvez a questão seja: definir o que é bobagem e o que não é. Acho que depende do contexto. Da pessoa que fala e da pessoa que ouve. É assim com todo discurso, na verdade.
 
Mas com bobagens... É mais relativo. O que eu digo pensando ser bobagem pode soar com importâcia para outra pessoa. Ou talvez eu tire algo de extrema relevância do fundo de minha alma que, quando traduzido em palavras, soe como a maior bobagem do mundo. Bobagens são temperamentais.
 
Bobagens são coisa muito especial. Há quem pense que são apenas bobagens, mas não são não. São ricas, tão ricas! Não há nada de bobo nelas. Mas então por que são bobagens? Ora, porque... Porque quando saem de dentro da gente parecem tão frágeis. Tão indefesas. Pedacinhos de nossa alma tímidos demais para serem considerados importantes. "O que está pensando?", "Ah, nada, bobagem". É sempre bobagem. Mas nunca é de fato. Sempre é coisa importante.
 
Bobagem é aquilo que a gente diz com medo de parecer bobo. Já começa justificando: "Olha, é bobagem...". Favor não confundir com besteira ou bobeira: essas me são outra coisa que aqui não cabe explicar. Voltemos às bobagens. Bobagem é subestimada. Ninguém leva a sério. Mas deveria. Bobagens dizem muito.
 
Aliás... Concordo. Bobagens não podem ser ditas. Elas falam por si só. E as minhas dizem que há algo de muito bobo no motivo de eu ter escrito tudo isso. Mas quem disse que bobagem não tem importância? Tem bastante. E é por isso que escrevi. E me sinto assim tão boba.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Há vida lá fora



O ambiente era agradável, aquecido pelas luzes âmbar, o aroma de café e as conversas amigáveis. Muito melhor do que a frieza da chuva lá fora. Entrou, pediu um café e sentou-se no único lugar vazio, no fim do balcão em frente à janela que dava para a rua. Ficou lá, esperando ser servido e olhando as luzes brilharem timidamente na noite lá fora.

Devido à forte chuva que caía, as ruas estavam vazias. Ouvia-se um carro arrastar água pelo asfalto e depois muito silêncio. E não havia passos apressados evitando as poças molhadas nas calçadas. Ele tinha quase certeza de que a cidade estava adormecida, a população refugiada no reduto de suas casas. A única vida que existia era ali, dentro daquele café abarrotado de calor humano em todos as significações possíveis.

Depois de aquecer-se com o último gole da bebida escura, pousou a xícara na superfície de madeira do balcão e voltou sua concentração para o mundo lá fora, a realidade paralela que existia além daquele refúgio de conforto e alento. Lá fora havia uma praça circular fracamente iluminada pelos postes onde desembocavam muitas ruas, e onde muitas pessoas transitavam ao longo do dia. Mas agora era noite e era tudo silêncio. A praça dormia, hibernava até a chuva fria passar.

Ele contemplava o mundo através daquela vidraça embassada. E deixava-se entorpecer pelo calor ameno, o conforto da cadeira, a conveniência de poder ficar ali por quanto tempo quisesse, sem pressa de voltar para a chuva hostil. Quase adormecia. Até que algo despertou-lhe a atenção.

Saída das sombras, atravessando a praça em direção ao café, uma figura passou, em frente à janela que ele observava. A barra do vestido preto, o som dos sapatos de salto e o cabelo esvoaçante por debaixo do guarda-chuva lhe apontaram que se tratava de uma mulher. Ela atravessou a rua vazia, parou em frente ao café por menos de um segundo e passou diante de seus olhos. Só passou.

Ele então despertou de seu devaneio. Acordou novamente para a vida. Deixou o dinheiro sobre o balcão, apanhou o casaco e saiu para as ruas molhadas. Respirou o ar frio e enfrentou a chuva que caía fraquinha em seu cabelo, ombros e levava embora todo o calor que sentira antes. Sorriu para a vida que se abria à sua frente. E andou de volta para casa.

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*Foto de minha autoria

**Não sei qual o sentido dessa história. Apenas senti vontade de escrever. Livre para quaisquer interpretações.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Um thriller qualquer...


Meia-noite, no estacionamento do shopping. Silêncio. Ninguém a vista. Só um carro parado junto a algumas árvores. Tudo escuro. Lá dentro, suspiros e arquejos. Uma música lenta tocando no rádio. Calças e blusas espalhadas. Nada no corpo, nada na cabeça. Um casal de apaixonados adolescentes inconseqüentes.

Folhas balançando lá fora. Que barulho foi esse?, pergunta a garota. Deve ser o vento, responde o garoto. Beijos e abraços. Mais um barulho. Mais perguntas. Não é nada...

Toc-toc. Susto e gritos! Uma sombra parada do lado de fora bate na janela. Uma alma condenada? Um zumbi sedento de sangue? Um lobisomem esfomeado? Pânico e terror se instalam no carro. Toc-toc. O garoto assustado dá a partida e saem zunindo pelo estacionamento. Ufa! Sumiu. Mais uns beijinhos? Não, melhor ir pra casa. Tem certeza? Tenho. Vamos embora. Então ta.

Uma sombra pára na frente do carro. AAAHHH!!! É o fim. Estamos perdidos! Qual o telefone da polícia? Ai meu Deus do Céu! Vamos morrer! Socorro!

Toc-toc. A sombra bate no vidro. O que fazer, o que fazer? A sombra se aproxima. Espera um pouco... Não é um zumbi! Ufa! Ufa... É um homem. Ele fala. Não escutam. Abaixam o vidro. Ele fala. O shopping fechou, vocês tem que ir embora. Ah... Obrigado. Desculpe. Sem problemas. Até logo.

Ufa! Ufa... Dirigindo, contornando os prédios de tijolinho do shopping... Mais uma sombra! Onde? Ali! Outro segurança... Não! Ah!! Toc-toc. Um homem grande, mancando, de barba comprida, bate no vidro. Medo, pavor... Calma. Não é nada. É só mais um segurança. Não é? Abaixam o vidro. A mão do homem invade o carro. Gritos. AAAHHH!

Pensamentos: Nós vamos morrer! Pai Nosso... Essas crianças de hoje...

O homem fala. Vocês esqueceram o ticket do estacionamento. Não vão conseguir passar pela cancela. Ah... Ah... Obrigado. Boa noite! Zuniram pelo asfalto novamente, assustados, aliviados, cansados. Por hoje chega!

Chegam na porta da casa dela. Finalmente, a salvo! Pára o carro. O rádio tocando. Ele olha ela olha ele. Sorrisos. Carinhos. Beijos, abraços, palavras sussurradas. Fome. Desejo. Ele: Me devora. Ela: Com prazer.

Na manhã seguinte encontraram o carro parado próximo a um canteiro, todo sujo de sangue por dentro, roupas esquecidas no assento do motorista. Nem sinal do dono do carro.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Metades

Noite. Ela está sozinha na varanda. A única luz é a do computador que a deixa ligeiramente azul e a dos outros prédios lá longe. Sem nada pra fazer e vontade nenhum de dormir, joga Paciência e observa a lua surgindo por trás de um edifício, linda, branca e cheia. Pega o celular e liga. A voz masculina atende.
Ela: Oi.
Ele: Oi. Tudo bem?
Ela: É, tudo bem. Tudo normal. Sem graça.
Ele: Hum. As férias não estão boas?
Ela: Ná... Nada novo. Nada interessante. Me sinto sozinha longe dos meus amigos.
Ele: Hum. Que chato. Se eu não fosse seu ex-namorado, ia aí te visitar.
Ela: É.
(Pausa)
Ela: Sabe. Se você fosse meu ex-namorado, não seria nada meu.
Ele: Hum, não poderia ser seu amigo?
Ela: Não. Porque se a gente não tivesse namorado, nunca teríamos nos conhecido, nunca teríamos sido amigos. E o fato de sermos amigos agora não ofusca nem um pouco o principal fato de sermos ex-namorados. Como você mesmo disse: "se eu não fosse seu ex-namorado". Seremos para sempre exes. É o status que define mais. Mais do que dizer "eu namorei ele/ela", é dizer "ele/ela é meu/minha ex".
Ele: Hum. Se essa é a sua teoria... acho que sim.
Ela: Eu estou filosofando. Filosofe comigo.
Ele: Ah... Se é assim. Você tem razão; no fundo sempre seremos exes.
Ela: As coisas ganham reforço quando já não são mais.
Ele: É claro. Então, você acha que nós poderíamos ser amigos sem ser namorados? Se noc conhecêssemos em outra ocasião?
(Pausa)
Ela: Não sei. Não sei. Talvez estivéssemos destinados a ser namorados e nada mais. Se fôssemos amigos, seríamos só amigos, não amigos verdadeiros, daqueles que não nos perdemos nunca; amigos só, que você pode facilmente esquecer e não sentir falta.
(Riso dele)
Ele: Ah, é?
Ela (séria): É. Ou nos apaixonaríamos inevitavelmente, e aí já não seríamos amigos só nem amigos verdadeiros, seríamos namorados do mesmo jeito.
Ele: É, acredito bastante na sua teoria.
(Pausa. Ela olha pra lua. Já tinha subido tanto que quase não a via mais. Fez mais um movimento na Paciência do computador. Perdeu)
Ela: E o que será que acontece com exes que deixam de ser exes? O que dizer um do outro? "Esse é meu namorado" ou "foi meu namorado" ou "foi meu ex". "Esse é meu ex-ex-namorado". Esse status não existe.
Ele: Status é uma questão muito importante pra você?
Ela: É. Pros outros. Mas como eu ia dizendo... as pessoas não compreendem, eles mesmos não compreendem, ficam num limbo.
(Riso dele)
Ele: Não existe isso. Se eles voltaram, voltaram.
Ela (ignorando-o): Não são namorados nem são exes. Já foram ambos e não tem como voltarem a ser um ou outro somente. Ou ficam sempre no passado, lembrando como eram felizes como namorados e infelizes quando exes; ou criam uma nova categoria, abandonando para sempre o passado, passando uma borracha, e só pensando no futuro.
Ele: Você está complicando as coisas. Ou é ex ou não é. Ex-ex é namorado. E ponto. Não é?
(Pausa curta)
Ela: Menos com menos dá mais. Você tem razão.
Ele: Eu sei.
Ela: Nesse ponto, minha teoria tem uma rachadura. Acho que quando exes voltam a ficar juntos, sempre procuram esquecer o passado. Mas só pensa no futuro não seria uma maneira de negar o que viveram juntos antes?
Ele: Tudo é uma negação de outra coisa.
Ela: Negar o passado é dizer sim ao futuro. E negar o futuro é viver para sempre no passado. E se vivemos no passado, não vivemos. Apenas contemplamos o que já foi vivido e não pode ser mudado. Morremos!
Ele: O namoro é a negação da solidão, o solteirimos é a negação do compromisso. E assim por diante.
Ela: Por outro lado, tudo é uma afirmação de alguma coisa também. O namoro é a afirmação do compromisso, e o solteirimos a afirmaçaõ da solidão. Também é possível enxergar tudo ao contrário. Porque o oposto de um é o um do oposto. E no fim tudo acaba se completando. Se somando.
Ele: Nenhuma informação é completa; todas são metades de dois pontos de vista.
(Pausa)
Ela: Mas as metades se completam. Todos somos metades. Buscando nossas outras metades.
(Risos dele)
Ele: Metades da laranja?
Ela (séria): Não. Algo mais profundo que realmente nos faça sentir inteiros. E quando acreditamos que nossa metade está no outro, quase sempre erramos.
(Pausa curta. Ele pensa nas aulas de sociologia, mas ela volta a falar antes que ele possa compartilhar esses conhecimentos)
Ela: Porque é muito raro uma metade encontrar outra metade e ambas quererem se completar da mesma maneira.
Ele: Essa metade perfeita não existe...
(Pausa longa. Bocejos)
Ela: Como vai sua namorada?
Ele: Vai bem, obrigado. E você, já encontrou sua metade?
Ela: Não, ainda estou procurando. Mas agora vou ser menos exigente: a metade perfeita não existe, né.
Ele: É, não existe.
(Pausa)
Ela: Sabe, em algum momento nós fomos perfeitos um pro outro.
Ele: Sim, fomos. Por um momento que achávamos que ia durar pra sempre.
Ela: É, mas não durou. Acho que essas coisas tem prazo de validade, no fim das contas.
Ele: É uma boa teoria. Mas como você explicaria os felizes e duradouros relacionamentos?
(Bocejo dela)
Ela: Não explico. Hoje não. Já estou com sono. Fica pra outro dia.
Ele: Tudo bem. Já está tarde mesmo, vai dormir pra acordar bem disposta amanhã. Pegar uma praia. Encontrar uma metade dando sopa.
Ela: Hum, ótima idéia. Vou pensar no caso.
(Pausa curta para mais um bocejo dela)
Ela: Boa noite, metade - de algum morango, laranja, ideologia ou coisa que o valha.
Ele (rindo carinhosamente): Boa noite.
Ela desligou o telefone. Olhou pro céu. A lua sumiu. Olhou pros prédios. Poucas luzes ainda acesas. Olhou pro computador. "Fim de jogo" escrito na tela da Paciência. Desligou. Apagou as luzes, foi pro quarto. Dormiu.
Em seu sonho, duas metades há muito separadas se uniam, ficando imperfeitas: juntas, mas imperfeitas.
Na manhã seguinte acorda, e não se lembra de nada.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Noite de Lua

Hoje eu vi a lua surgir de trás de um prédio, linda, branca, gloriosa. Em poucos segundos iluminou a noite negra. Achei incrível. Senti como se eu fosse a única que estivesse observando o fenômeno. Tão privilegiada. Me espantou a rapidez com que aquela imensa esfera subia pelo céu, querendo chegar ao topo o mais rápido possível, para impor sua delicada e adorável presença.

Tirei uma foto. Quando vi, ela estava lá, no visor do celular. Tão linda quanto ao vivo. Mas aprisionada no buraco da rede de proteção da varanda.

Olho pro céu agora, e não vejo mais a lua. Sumiu. Escondeu-se atrás de outro prédio, bem lá no alto. Boa noite, lua. Até outro dia.

domingo, 15 de novembro de 2009

Suspiros na Noite

À noite no seu quarto ela ouvia o vento entrar pela janela e observava o movimento das cortinas. O silêncio e a escuridão só faziam lembrá-la de que estava completamente só. Ou quase, descontando seu gato que acabara de pular na beirada da cama com um miado fraco.

Da onde estava na janela via a lua no céu e a rua lá fora, vazia e calma. Suspirava. Era impossível dormir quando a imagem dele surgia ao fechar os olhos. E sonhar com aqueles momentos de felicidade só tornava o ato de acordar ainda pior.

Ouviu um ‘click’ estranho. O gato provavelmente pulara em cima de alguma coisa. E ela percebia agora que tinha sido sobre o botão do aparelho de som, que começara a tocar a música. Aquela que ele tinha composto especialmente para ela. Que ela nunca mais tinha escutado, mas não tivera coragem de jogar fora o CD. E aquela melodia suave agora ecoava pelos cantos sombrios e tristes de seu quarto, ganhando espaço janela afora.

Suspirou pesadamente. Virou-se para desligar a música, mas ouviu algo bater e cair. Procurou o gato, que agora ressonava embolado em sua cama desfeita. Olhou para trás e prendendo a respiração, voltou à janela. Uma pedrinha redonda se encontrava ali. Pegou-a nas mãos e como que se lembrando de algo, olhou para frente.

Parado no meio da rua com as mãos nos bolsos da calça, ele a admirava. Parecia sofrer também. Ela achava que aquilo era apenas mais um truque de sua imaginação e que deveria procurar um médico urgentemente. Até ele chamar seu nome, daquele jeito doce que a fazia derreter-se por dentro. Era real.

Saiu da janela e desceu as escadas aos tropeços. Abriu a porta com desespero e correu para a rua. Tinha sumido. Para onde fora? Ela estava ficando louca? Por que não conseguia parar de chorar? Achava que suas lágrimas haviam secado há muito tempo…

Sentiu os braços fortes e acolhedores ao seu redor e aquele cheiro tão familiar. “Estou aqui.”, falou ele num sussurro que a fez se arrepiar como antigamente, em tempos mais felizes. “Nunca mais me deixe assim”, ela disse, virando-se para olhar novamente dentro daqueles olhos negros que tanto sentira falta. Ele concordou: “Nunca”.

Beijaram-se. E seguiram para a casa abraçados.