terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Chuva de Verão

Dá e passa.
Desaba o mundo em forma de água,
berra o céu em forma de trovão.
Cai a chuva com toda graça,
Molha tudo e depois passa.
Chuva de verão: dá e passa.
Essa promíscua,
ameaça, ameaça
Cai. Mas passa.
Hoje esperei pela chuva de verão, o guarda-chuva na bolsa, você na minha mão. Olhei pro céu
tocando sua pele macia, você ria, mas a chuva não veio. Esperamos a chuva e ela não veio.
Mas quando o seu lábio roçou no meu, senti um pingo.

Luiza - Tom Jobim

Rua,
Espada nua,
Boia no céu imensa e amarela
Tão redonda lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E num silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas
Escuta agora a canção que fiz
Pra te esquecer, Luiza
Eu sou apenas um pobre amador
Apaixonado
Um aprendiz do teu amor
Acorda amor
Que eu sei que embaixo dessa neve mora
um coração

Vem cá, Luiza
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Com um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza
Luiza
Você não esperava, eu sei que não, não esperava nenhum momento dessa noite, você, que acha que sabe tudo sobre mim. Não, você não sabia o que estava por vir, não sabia o que eu ia pedir. Pedi uma cerveja e você se espantou, logo eu, que não bebo nem refrigerante. Mas eu pedi uma cerveja e você se assustou, mas não deixou por isso mesmo, pediu mais um copo e bebeu, comigo, brindou. Brindamos, a quê, não me lembro faz tempo, umas horas, talvez, mas muito mais no calendário do álcool. Brindamos à vida, deve ter sido isso, e sorrimos, bebendo. Você me olhou, ainda sem acreditar, eu ali, naquela virgindade alcóolica ainda, tão menina, tão menina, mas tão moça, tão moça. Você não viu o tempo passar, você não viu a idade chegar, e agora olha só, a distância diminuiu, você e eu, ainda não estamos no mesmo lugar nem nunca vamos estar, mas já está mais perto, não há como negar. Então pare de fugir de mim, pare de ser tão assim.

(mas nunca deixe de ser assim, porque é como gosto de você, tão assim, tão doidim, tão lindim, que é como eu quero você, todinho assim, pra mim)
- Será que vale a pena?

Você me pergunta, e eu respondo: sempre vale a pena quando a alma não é pequena. Sei que o verso não é meu, mas que importa, somos todos poetas, vivemos todos do mesmo ganha-pão, as palavras, essas ingratas, que muitas vezes nos põe no chão.

Vale a pena, eu te digo, por que não valeria? Somos jovens, apesar da sua insistência em se clamar mais velho, vá lá, tudo bem, você é velho, mas e daí? Eu digo que nós dois, juntos, somos jovens e podemos o que quisermos.

Você pergunta por que vale a pena e eu digo simplesmente que vale e pronto. Dói tanto assim? Não dói. É tão difícil? Não é. Vai mudar nossas vidas completamente? Só se a gente quiser.

As coisas não precisam ser assim tão difíceis, enroladas, complicadas. Elas podem ser exatamente do jeito que são. Uma flor é uma flor e ponto. Um beijo é um beijo e ponto. Não é preciso ir além disso.

Você me pergunta se vale a pena. Eu digo que vale. Eu grito que vale. É claro que vale. Meu amor, se a vida não vale a pena, de que adianta eu estar aqui escrevendo tudo isso às 01:55 da madrugada? Vamos lá, deixe de ser temeroso, viva e pronto, não faça perguntas.

Beba este último copo comigo e vá para a cama, sem perguntar se a alma é pequena e se viver vale a pena. Se eu digo que vale, assim, agora, acredite, é a mais pura verdade.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

(Sem) Explicação

- Não entendo essa sua mania de me mandar SMS sabendo que eu nunca posso responder.
- Já lhe ocorreu que eu talvez não procure respostas?
- Não. Explique-se.
- As mensagens que eu escrevo não tem pretensão de conter um diálogo. São só palavras, coisas que eu penso e queria te dizer, ou dizer a mim mesma, aforismos. Encaro seu celular sem créditos como um poço sem fundo, onde eu jogo uma moeda e não a ouço cair; sei que ela está lá, mas não sei o que lhe aconteceu, se alguém sabe que dela, só sei que eu a joguei, eu a queria lá. É mais ou menos assim. As palavras que te escrevo, mesmo as mais constituídas de sentido, tem sua razão de não serem respondidas. Até porque mesmo quando nos encontramos, você não responde as minhas perguntas.
- É, eu sei. Mas você quer que eu responda? Tem coisas que eu simplesmente não sei o que falar. Acabo me escorando na defesa de não ter créditos e se não me manifesto, pode ser que eu não tenha lido, você não vai saber. Mas você também não me pergunta essas coisas de novo.
- É claro que não. Elas ficam no limbo da sua caixa de entrada. Como eu já disse, eu não procuro respostas. Procuro um meio de expelir essas palavras pra fora de mim, e acho o seu celular bem adequado para essa função. E depois, tem certas perguntas que não merecem, nem devem, ter respostas. Tem tanta coisa que eu poderia te perguntar, assim, cara a cara, mas tenho medo do que você vai responder. Pelas mensagens não corro esse risco. Sei que elas chegam, mas que não terão respostas. Se eu te digo agora, na lata, que te amo, o que você diz?
- Eu...
- Viu? Por isso prefiro as mensagens. Algumas respostas só magoam, não correspondem às nossas expectativas; às vezes nem existem, dependendo da coisa que se diz. Deixe minhas perguntas sem respostas, é melhor assim, pra mim e pra você.
- Como pode ser melhor? Eu juro que não te entendo.
- Eu sei, querido, eu sei. O dia em que eu encontrar alguém que me entenda me caso com a pessoa. Mas é provável que ela não goste do que entender de mim e queira distância. É por isso que eu gosto de você, assim, todo confuso, cheio de teorias, tentando decifrar meus segredos. Deixe as coisas como estão e o universo não vai explodir.
- ... Mas...
- O quê?
- E se eu quiser que meu universo exploda?
- ?
[beijo]

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

aquários

- São iguais. Não são o mesmo, mas são iguais. Talvez não na aparência nem nos modos, mas são iguais. Em quê, você pergunta. Em como me fazem sentir. Veja bem. Um eu vi primeiro e amei no mesmo instante. Delicado, sereno. Um pouco confuso, mas muito amável. Porém aos poucos foi me angustiando, cada acontecimento me fazia duvidar de sua função na minha vida. Mas eu continuei oferecendo chances e a cada nova chance, uma nova frustração. Saí magoada. Foi quando encontrei o outro. Era bem diferente, a princípio, nada de serenidade, meio obscuro. Mas gostei. Fui analisando aos poucos, lentamente, cada ângulo, até me convencer de que era uma boa escolha, de que valia a pena, de que seria diferente. Então veio a primeira frustração. Alguma coisa que não deu certo. Me fiz de cega e não liguei. Mas depois vieram outras. E mais outras. E ele foi se mostrando cada vez mais confuso e menos amável, mas ainda assim eu sentia que queria amá-lo. Mas a frustração... ah, e quando percebi! Quando percebi que os dois eram iguais... que mesmo traçando caminhos diferentes eu tinha chegado a um mesmo lugar novamente, que estava novamente diante da primeira escolha que tinha feito, ou melhor, um reflexo da primeira escolha, eu percebi que...Percebi que eles me frustram. Mas não consigo deixar de me sentir atraída por eles.

- Ainda estamos falando de aquários?

Aquários

Gosto de aquários. Toda a vida tive fascínio por grandes tanques de água com corais, algas, conchas, pedras e repletos de peixes coloridos de diversas formas e tamanhos, de água doce ou salgada. Acho curioso ver os peixinhos nadando de um lado pro outro, comendo um pouquinho, nadando mais um cadinho, pra lá e pra cá, e só. Eu gosto de aquários.
Já tive três.
O primeiro quando ganhei, era nova ainda, não tinha muito jeito pra cuidar dos peixes, acabaram morrendo, não tive paciência, joguei fora tudo. Mas foi bom pra saber como era.
O segundo, já foi diferente. Escolhi um tanque bem bonito, grande, resistente, dei a ele o melhor lugar da casa, na estante da sala, bem visível, com muito destaque. Cuidei dos peixes, lindos, de cores bem vivas. Me dava a maior alegria aquele aquário, cuidei dele todos os dias por dois anos. Mas os peixes morreram. Os corais ficaram doentes. O lodo tomou conta de tudo. Tentei limpar bem, me livrei do que estava doente, comprei peixes novos. Mas não se adaptaram, morreram em poucas semanas e o aquário rachou por completo.
Na terceira vez já estava quase desistindo, não queria mais saber de aquários, dão muito trabalho. Mas então vi um daqueles redondos, pequenos, simples, de filme ou desenho animado. Achei tão bonito, tão singelo. Já vinha com um peixe dentro, pequenino, de rio, douradinho. Bonitinho. Levei pra casa.
Hoje ele fica sobre a cômoda, no meu quarto, e não tem nada de mais: só o peixe e umas pedras no fundo. Dou comida todos os dias e é o bastante. Às vezes fico triste e nos encaramos longo tempo, eu e o peixe, brincando de sério, tentando decifrar o pensamento um do outro. Depois ele volta a nadar e eu vou fazer outra coisa.
Aquários não me dão mais tanta alegria quanto antes, já não me dedico inteiramente a cuidar deles. Não vale tanto a pena assim. Agora gosto de flores e planejo ter um jardim. Mas esse meu último aquário, o redondinho, com o peixinho douradinho, ainda está lá, em cima da cômoda, e não me dá incômodo nenhum. Continua lá, vivinho, e eu também. Acho que esse aquário vai durar por um bom tempo. Talvez uns dez anos. Me disseram.

Caio de pé

Eu nunca amo pela metade, sempre por inteiro.
Meus dois pés estão sempre fora do chão. A cabeça? Nas nuvens.
Me entrego de uma vez só, nua, sem pudores, saltando sobre o desconhecido.
Sei que assim o impacto é maior, mas a queda tem qualquer coisa de bonito e triste.
Coisas tristes tem a estranha mania de serem bonitas e provocarem lágrimas.
Acho que sou como gato, tenho sete vidas (ou até mais). Caio de pé.
Caio, levanto, e me preparo para o próximo salto.
E quem sabe numa dessas não aprendo a voar.
O amor dá asas.