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quarta-feira, 18 de março de 2015

Fuga (2008)

*Publicado na coletânea do VII Concurso Municipal de Conto de Niterói em 2008
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Ela queria fugir. Não sabia pra onde, não sabia como. Só sabia que não agüentava mais ficar onde estava. Fechou os olhos, respirando profundamente, a cabeça e as costas apoiadas na porta que batera com força. Não agüentava mais tudo aquilo. Queria ir embora, ir pra bem longe, e não ter mais que suportar tanto sofrimento.
       Ela tinha tanta mágoa, tanta dor, que nem lembrava mais o que era ser feliz. Nem sabia mais como sorrir. Não vivia; sobrevivia. Passava os dias da mesma forma, sem nenhuma mudança, nenhuma melhora. Sua vida continuava do mesmo jeito que sempre fora, medíocre, e isso lhe doía cada vez mais. A cada ano que passava, a consciência da sua desgraça aumentava. E ela não podia mais agüentar.
       Trancou a porta do quarto, e se permitiu deslizar por esta até sentar-se no chão, a cabeça pendendo para o lado, as lágrimas se segurando para não rolarem por seu rosto, adiando o choque entre a água morna de seus olhos na bochecha ainda quente da bofetada que levara. Apertou os olhos ainda mais forte, impedindo as famigeradas de lavarem seu rosto de porcelana. Por quê? Por que ela tinha que passar por tudo aquilo? Por que não podia ter uma vida normal, como todo mundo?
      Abriu os olhos lentamente, encarando seus pés nas botas de cadarço que iam até quase nos seus joelhos. Abraçou as pernas e enterrou a cabeça entre os joelhos, chorando toda a sua tristeza.
       Cessou o choro, e se arrastou pelo chão até uma tábua solta no assoalho. Soltou a tábua com cuidado, retirando de dentro do buraco no chão algumas notas de dinheiro enroladas num elástico, e uma pequena caixinha preta, que continha uma corrente de ouro com um medalhão, que fora da avó. Beijou o medalhão, e o colocou em volta do pescoço, escondendo-o por baixo da blusa preta. Ergueu-se agilmente, escutando a mãe bater na porta. Ignorou o chamado.
       Abriu a porta do armário, tirando de dentro uma mochila grande e vermelha, e começou a meter ali algumas roupas e qualquer coisa que lhe fosse útil; meteu também o dinheiro, alguns livros e CD’s que estimava, assim como seu disc-man, um caderno e uma caneta; não podia ficar sem escrever. Vestiu o casaco de capuz, jogou a mochila nas costas e saiu do quarto. A mãe estava na área de serviço, e não viu quando ela fechou a porta da casa atrás de si, deixando um pedaço de folha de caderno rabiscado no chão: “Adeus”    
       Sua vida sempre fora igual desde bem pequena; ela não lembrava direito se um dia fora diferente. Morava num apartamento pequeno, de dois quartos com a mãe e o pai, que brigavam constantemente pela falta de dinheiro. A lembrança mais remota de Lúcia era de estar ali, no mesmo quarto, encolhida num canto, escutando a briga entre eles.
      O tempo foi passando, e ela foi crescendo naquele ambiente instável, o pai e a mãe sempre infelizes, trabalhando fora em tempo integral para sustentar a ‘família’.
       Lúcia cursava o Ensino Médio, e quando não estava na escola estava andando a esmo pelas ruas ou trancada no quarto escrevendo e escutando música. Não gostava de fazer as tarefas domésticas, só fazia-as quando era obrigada pela mãe, que sempre reclamava de a filha ser uma imprestável. Mas a garota nunca se deixou magoar por essas ofensas; já estava acostumada. Mas sonhava em melhorar a sua vida, e a da mãe também, para que essa parasse de infernizá-la com suas queixas e injúrias.
        Agora, com seus dezessete anos, às vésperas do vestibular, não sabia que rumo dar à sua vida. E era tanta pressão: da escola, da mãe, do pai, do mundo. Sempre fora uma aluna exemplar, sempre ganhara bolsas de estudos na escola, mas nesse último ano, estudar parecia impossível. Não tinha ânimo, não tinha vontade de estudar, de viver, de ser alguém; a mãe sempre lhe atirava na cara que acabaria uma fracassada, como ela; talvez fosse verdade. Não, tinha que ser forte; tinha que lutar para ser alguém melhor, alcançar os seus sonhos.
       E quais eram os seus sonhos? Atualmente, deixar aquela casa, aquela vida que a fazia doente. E depois? Depois, não sabia. Descobriria um jeito de ser feliz. Longe dali.
      E naquela tarde, tinha sido a gota d’água. Chegara em casa com uma nota baixa em uma prova, e a mãe lhe recebera com tapas e palavras duras. Pensando bem, a surra não fora despropositada. Já há algum tempo Lúcia vinha desrespeitando a mãe, não cumprindo suas ordens e chegando sempre tarde em casa. E ela nunca estudava, correndo o risco de perder a bolsa de estudos e acarretando mais problemas financeiros. E o recente problema alcoólico do pai estava deixando sua mãe ainda mais louca e sem saber o que fazer. Teve pena. Mas, ao mesmo tempo, achou que a melhor maneira de ajudar sua pobre mãe seria indo embora para sempre, já que ela era mesmo um estorvo tão grande. Com esse pensamento, atravessou a rua movimentada do centro da cidade, já fora do prédio em que desejava não ter mais que morar, caminhando em direção à rodoviária.
       Mesmo decidida a trilhar seu caminho sozinha no mundo, numa outra cidade, entre favores, caronas, bicos e qualquer coisa que aparecesse, continuava a se sentir culpada por deixar a mãe. Mesmo que essa nunca tenha parecido amá-la. Do pai, sabia que não sentiria saudades; tinha ódio de tudo o que ele fizera a ela e à sua mãe, e novamente pensou em como ela sofreria sem a filha para ampará-la. Estaria Lúcia sendo egoísta ao pensar somente em sua felicidade? Afinal, se sua mãe cobrava tanto que ela tirasse boas notas e conseguisse entrar numa faculdade pública, não é por que ela a amava e queria o melhor para ela?
       No saguão da rodoviária, que não era tão longe de sua casa, viu várias pessoas de todos os tipos, indo e vindo de vários lugares. Para onde ela deveria ir? Qual seria o seu lugar no mundo? Londres, pensou, com um sorriso amargo. E percebeu que fugindo dessa maneira ela só estaria tornando o sonho mais impossível ainda. Mas, talvez, ela pudesse ser descoberta em algum bar de uma cidade qualquer, como uma excelente cantora e então ficar famosa e ir morar em Londres. Acontecia o tempo todo, certo? Não, pensou Lúcia novamente. Nem ela acreditava mais nas próprias mentiras que inventava para se sentir melhor.
       A garota permaneceu na rodoviária até anoitecer, o que durou mais ou menos umas duas horas, pensando no que fazer.
       E, então, veio o medo. O medo de se descobrir sozinha no mundo, sem família, sem amigos, sem casa, sem ninguém. Sozinha num bar de beira de estrada, sob condições que ela nem queria imaginar. Pensou no que a mãe faria quando visse que a filha tinha fugido. Ficaria satisfeita? Ligaria para a polícia e lhe daria uma surra quando a encontrassem? Ou será que nem se importaria? Ou, quem sabe, ficaria terrivelmente abalada e se arrependeria de todo o mal que lhe fizera?
       Ela não podia fazer isso. Não podia simplesmente ir embora. Afinal, que tipo de filha era ela? Que tipo de ser humano abandona a mãe à própria sorte, quando esta nunca fez nada mais que desejar que ela fosse feliz, mesmo que expressasse tal desejo de forma meio torta? E, depois, Lúcia e a mãe nem sempre foram inimigas. Quando ela era criança, sua mãe era sua maior heroína, seu refúgio. Mas, com a chegada da adolescência e das grandes crises familiares, as duas mulheres foram se afastando. Mas ainda havia tempo. Elas podiam voltar a ser amigas. Só precisavam conversar. Nem tudo tinha que ser resolvido com brigas e lágrimas. Ainda havia esperança, certo?
       Lúcia correu de volta para casa e, quando ia atravessar a rua em frente ao prédio que morava, avistou a mãe, aos prantos, sendo amparada pelo porteiro, olhando por todos os lados, procurando. Olhou para a frente, viu a filha, e sorriu de alívio. “Mãe...” A garota chorou, e antes que pudesse fazer qualquer movimento, a mãe veio em sua direção, atravessando a rua sem olhar para os lados. Um carro buzinou e freou antes que uma tragédia acontecesse, e mãe e filha se encontraram no meio da rua, parando o trânsito, em meio a buzinas e xingamentos dos motoristas irados.
     “Me desculpa, mãe, eu não devia ter ido embora...” “Minha filha, vamos conversar em casa. Eu sei que as coisas estão confusas, mas nós duas vamos conseguir resolver isso juntas.”

      O porteiro encaminhou mãe e filha de volta para o prédio antes que o guarda pudesse multá-las por obstruir o trânsito, e as duas voltaram para casa, abraçadas e de mãos dadas.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Inverno

Sobretudo o frio. Era o que mais dominava seus pensamentos naquela noite branca. Na varanda da casa, coberta dos pés à cabeça de todas as peças de roupa que possuía, ela enfrentava o vento gélido e ignorava os flocos de neve que atingiam seu rosto. Sozinha na noite, ela esperava. Mas não era uma espera qualquer. Não tinha um propósito. Sabia que tinha que esperar, pois alguma coisa aconteceria. E isso era tudo.

O frio também não deixava espaço para muitos outros pensamentos. Ela concentrava todas as suas energias em imaginar a temperatura daquela noite, só que ao contrário: 29 graus positivos, 29 graus positivos, calor, suor, praia. Era como um mantra. Imaginava uma praia de areia fervilhante com palmeiras por todo canto. Mas bastava que abrisse os olhos e contemplasse a imensidão de neve à sua frente para que se esquecesse completamente do calor e do sol. A rua, a calçada, a grama, tudo era um só, um todo único e branco, muito branco, profundo, limpo, novo, macio. Gelado. No lugar de palmeiras, pinheiros. No lugar de barracas de praia, tímidas casinhas brancas e beges, coladas umas às outras, como que tentando se esquentar. Nem o concreto aguentava o frio, mas ainda assim ela esperava, por algum sinal, um qualquer coisa que surgiria do meio da tempestade.

Aos poucos foi tomando forma. Uma figura esguia e negra, bem ao longe, quase imperceptível no meio da nevasca. Foi ficando cada vez mais nítida à medida que se aproximava, caminhando a passos confiantes e deixando suas pegadas sobre a neve fofa. Ela reconheceu a figura, e pôde então se lembrar do que esperava. Quando ele subiu as escadas da varanda, ela sentiu seu rosto se degelando aos poucos, fazendo surgir um sorriso. Ele trazia outro sobre os lábios e um pacote nas mãos enluvadas.

"Pensei que tivesse esquecido", ela disse, tomando o pacote nas mãos.
"Mesmo com toda essa neve, não esqueceria de um pedido tão importante. Abre."

Ela abriu o envelope pardo e de dentro saíram resquícios de sol, céu azul, palmeiras e areia quente. Retratos de um verão inapagável, mesmo que tão distante.

"Feliz verão", ele disse.

Eles sorriram com a lembrança e o inverno pareceu derreter.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Sonhos

O cheiro de gasolina imperava no ar, sobre a brisa fresca da madrugada, mascarando os hálitos de cerveja e chiclete. O som era pesado e os movimentos eram todos arrastados. A visão perdia o foco de quando em quando e a cabeça girava, girava, girava, ao mesmo tempo que ele a girava, girava, girava com um elaborado movimento de braços. Os sorrisos eram largos e as risadas longas. Os toques eram alternados, ela acariciava a camisa dele sobre o peito, e ele brincava com os cabelos trançados dela. E a conversa não terminava, emendavam um assunto no outro, e quando faltava assunto, comentavam o cheiro forte da gasolina, do caminhão que vinha abastecer o posto. Entrelaçavam os dedos, bebiam mais um gole de cerveja, os olhares se cruzavam, os lábios se encontravam.


Durante toda a noite, aquela única noite, o ritual se repetia, e a madrugada não terminava, e tudo girava, girava, girava, ela dançava, dançava e dançava, e se beijavam, beijavam, beijavam, sem ter fim, mesmo porque não tinha havido começo. Quando viram já estavam no meio de alguma coisa, que não é dia nem noite, nem 8 ou 80, nem amor nem amizade. Era só um nadinha de nada, uma coisinha dessas que acontece por acaso sem nenhum motivo e sem margem para elaboração. Um lapso. Mais nada.


E mesmo depois de horas, dias, anos, aquele lapso permaneceu como uma lembrança embrionária, de uma possibilidade não praticada, sem nunca vir a ser realizada. Quase como um sonho, daqueles que começam não sei como e são interrompidos na metade, deixando no ar a sensação de algo doce, um quase-milagre, uma pulga atrás da orelha sempre a mordiscar e reavivar aquela ideia impossível, impraticável, apenas imaginável.


E como são bons os sonhos, mesmo os sem conclusão, pois nos lembram constantemente de todas as possibilidades e de todos os milagres que a vida pode oferecer. Todos sonho é um milagre e todo beijo é uma promessa de realização de um milagre. E mesmo quando as promessas não são cumpridas, resta o doce sabor de uma recordação...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Nuvens

Nuvens como flocos de algodão coloridos cobriam o céu vespertino no dia em que te conheci. Seu riso era como música que inundava de alegria a minha tarde vazia. E eu me lembro que só queria dançar e dançar até me transformar na doce melodia do seu sorriso.


Foi quando você me beijou. E as nuvens ficaram brilhantes e explodiram no céu como fogos de artifício, enchendo de luz e cor a minha existência triste.


E daquele dia em diante, a condensação é o meu estado da água preferido.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Devaneio Sísmico

Inspiração devaneada em conjunto com Thiago Sabb, do blog: http://paradoxosismico.blogspot.com/


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E naquelas nuvens alaranjadas, quase sentia o sabor artificial daquela bala que comíamos no colégio. O gosto da sua boca no primeiro beijo.


Que gosto doce teriam aquelas nuvens, e tão macias como o seu abraço naquela tarde ensolarada, sentados na grama, olhando o céu


Com toda aquela cor, nem lembrava a cor do céu ou da grama e tampouco do sol. Só lembrava a cor da sua pele, branca, em que se concentram todas as cores. Da sua boca, não há como esquecer, pois era a mesma que tomava conta das suas maçãs quando eu lhe roubava mil beijos.­


Quanto ao perfume que se desprendia de seu pescoço– melhor que o aroma da grama recém-cortada ou da terra pela chuva lavada–, este era o cheiro que se impregnava em meus cabelos, no meu travesseiro, e do qual eu não queria me livrar jamais.


Hoje, vejo que éramos só crianças –com sentimentos adultos– e que talvez muitos adultos nunca sentiram, quiçá sentirão algum dia. O mais puro, honesto, e ao contrário do poeta, o sentimento que não existia ciúmes, não para nós.­


No céu, agora, vejo as mesmas nuvens alaranjadas daquela tarde, mas o momento é outro, tão distante da beleza que foi um dia. O céu que está acima de mim pode ser o mesmo acima de você, mas o chão sem dúvida não é o mesmo, e eu já não ando pela mesma grama que costumávamos nos deitar.


Mas a noite, ainda consigo sentir o seu cheiro no travesseiro, dos dezoito aos trinta. As vezes me pego em um devaneio ou outro, tentando imaginar como seriam nossos frutos. Imagino que seriam de laranja.­ Doce como a sua boca naquele nosso primeiro beijo.




por Luiza Leite e Thiago Sabb

domingo, 10 de julho de 2011

Janela

Gostei das nuvens alaranjadas e esparsas sobre o céu azul-claro que apareceram na minha janela hoje.
Gostei também do azul quase negro que veio com a noite e com a lua prateada que se instalou depois.
E gostei das estrelas que se acenderam pra acompanhar.

Mas gostei mais ainda quando você me apareceu, na janela do computador, a quilômetros e horas de distância, só pra dizer que me ama.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

devaneio secreto

Sua voz soa como música nos meus ouvidos. Nem me atento às palavras que saem de seus lábios, elas não me interessam, não me dizem nada sobre você; falam de algo que eu preciso saber, mas não quero, não agora. Fecho os olhos e ouço só a sua voz, esse timbre aveludado que me faz sonhar acordada, me faz pensar como seria o gosto na boca. Vou mudando as suas palavras, e pouco a pouco, um discurso sobre história da arte vira um sussurro apaixonado soprando perto da minha orelha e eu sorrio com os olhos fechados, pensando no meu segredo.
 
Ninguém sabe dos meus devaneios.
 
À noite você me acompanha até em casa, vamos caminhando pelas ruas escuras e dessa vez eu nem me atento para os perigos da cidade, meus olhos e ouvidos estão só em você, que fala só para mim, olha só para mim, e o momento parece eterno, parece mágico, parece filme - e dou piruetas de balé no meio da calçada pra parecer filme mesmo, e você ri, me chama de doida, e eu sou mesmo. Paro na entrada do meu prédio e o caminho parece que foi curto demais. Você se despede com um aceno, mas este é o meu filme. Seguro sua mão e furtivamente toco seus lábios com os meus e eu sei que você não sabe o que fazer e por isso sorrio na sua boca. Foi pouco, alguns segundos, mas consegui sentir o gosto de chocolate da sua voz de veludo, e isso pra mim já é tudo.
 
Te deixo confuso na calçada, tentando entender, tentando me entender, e o quê fazer depois, e quase sinto pena, se não sentisse um prazer incrível por realizar essa fantasia secreta. E se no outro dia você quiser conversar, e dizer que não vai dar certo, não deve se repetir e é melhor eu desistir, vou sorrir apenas e dizer: só queria saber como era.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Fantasmas II

Virei a esquina e quase que meu sorvete se esparrama na calçada. Ali, na minha frente, estava um fantasma. Fiquei completamente imóvel e sem ação. O que se faz numa hora dessas? O fantasma parecia tão apavorado quanto eu, o que não é surpresa - eu, para ele, sou um fantasma também. Ficamos os dois mudos, com os olhos esbugalhados, de frente um para o outro. Sentia o meu sorvete escorrendo pelos meus dedos e pingando sobre o meu sapato, mas eu não podia fazer nada. O choque era grande demais. Aquele fantasma pra mim já estava morto há muitos anos.

Quando o sorvete derreteu por completo e eu deixei a casquinha escorregar para o chão, o cachorro dele avançou e começou a comer os restos e lamber os meus sapatos. Aquele cachorro levantou a cabeça e me reconheceu, mas não teve medo de mim como o dono. Dizem que animais enxergam espíritos e convivem bem com eles. O celular tocou e despertei do transe. Atendi, balbuciei palavras sem saber se faziam sentido e desliguei. Meu fantasma particular abriu um sorriso nervoso, puxou a coleira do cão e murmurou coisas inaudíveis. Meu rosto se descontraiu e então eu ri. E o fantasma riu também. Não trocamos nada além de gargalhadas.

Continuamos nossos caminhos, cada um pra um lado. Mas sei que não preciso ter medo deste fantasma num próximo encontro. Da próxima vez, vou até arriscar tocá-lo pra saber se é de carne e osso.

domingo, 3 de abril de 2011

uma noite qualquer

meu coração jamais encontrou conforto semelhante à sensação de bater junto ao seu.


nem minha pele sentiu tamanho arrepio só de estar em contato com a sua.


no escuro do seu quarto nossos corpos se encontram em sincronia e nossos cheiros se cruzam no ar.


meus cabelos se enroscam nos seus de tão perto que estão e poderiam ser tanto seus quanto meus.


o som do silêncio é lindo.


e acordar ao seu lado, mais ainda.

terça-feira, 29 de março de 2011

Adormecida

Desperto do sono, mas não do sonho. Diante de meus olhos o devaneio vai se dissipando. Olho pela janela, procurando pelas fadas. Mas elas sumiram. Olho em volta, à procura do príncipe. Ele não veio. Contemplo o mundo de cima da torre. Será que mudou um pouquinho? Será que vale a pena despertar? Me disseram pra só acordar quando príncipes voltassem a resgatar donzelas em perigo e fadas voltassem a realizar desejos e bruxas fossem extintas. Será que é esse o mundo que me espera? Talvez seja melhor voltar ao devaneio. Dormir até o sonho se realizar. ... E nisso já se vão cem anos.

domingo, 27 de março de 2011

A Chave

Com muito cuidado pegou a chavinha que carregava pendurada no pescoço, segurou-a forte contra o peito e respirou fundo. Em seguida, afastou um pouco do tecido da blusa e colocou a chave na fechadura, girando-a e abrindo a pequena portinha do seu coração. Cautelosamente foi tirando um a um dos residentes e colocando-as sobre a cama, as miniaturas de todos os seus amores passados.
Arrumou-os em fila por ordem cronológica. Os primeiros eram ainda menores que as outras miniaturas, seus amores de infância que ficaram para sempre crianças em seu coração. Sorriu com afago para os três rapazinhos e os colocou numa pequena caixa quadrada que estava ali perto e trancou à chave.

Depois vieram os amores da adolescência, o primeiro beijo, o primeiro namorado, o primeiro coração partido. Beijou cada um deles na pequena testa e os guardou dentro de outra caixa, um pouco maior que a anterior, em formato de coração, e novamente passou a chave.
E então foi a vez dos pequenos flertes e romances do início da vida adulta. Eram muito mais que apenas três. Passou os olhos por cada um deles, sorrindo e lembrando de cada um deles. Por fim, guardou-os numa caixa grande, redonda. Mas não trancou ainda.

Separou um e ficou olhando-o por longo tempo. Pensando. Se era cedo demais para retirá-lo de seu coração e guardá-los na caixa de lembranças para sempre. Pelo o que ela sabia, ainda era possível um envolvimento entre os dois. Mas será que valia a pena? Será que ela não devia seguir em frente e deixá-lo na velha caixa? Seria um peso a menos em seu coração fatigado. Era algo a se considerar.

Riu de si mesma. Não importava realmente se ela o colocasse na caixa ou não, o lugar daquelezinho em especial ainda estava bem demarcado em seu coração. A falta que ele faria ali seria um constante incômodo, talvez maior que a sua presença. Que não causava tormento, nem alegria, apenas uma adorável sensação de conforto e alívio. Decidiu. Era melhor deixá-lo onde estava.
Trancou a caixa redonda, pegou a miniatura que sobrava e a colocou de volta em seu coração, trancando-o novamente. Sentiu-se bem mais leve. Mas sem a triste sensação de um coração vazio.

Dali a algum tempo, outra miniatura de um amor passaria a ocupar seu coração. E a antiga seria guardada na caixa sem hesitação. Mas só dali a algum tempo.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Amores de Carnaval

Pierrôt para Colombina:

Doce menina
dos gestos de fada
do olhar que ilumina
a noite estrelada

Querida bailarina
da beleza aflorada
que dissipa a neblina
com sua voz encantada

Minha Colombina,
não seja malvada
teimosa menina
você é minha amada

Esqueça as palhaçadas
daquele arlequim
Venha reinar, minha fada
no coração do meu jardim

Ass.: Pierrôt

Colombina para Arlequim:

Perto de tudo o que existe,
meu amor nem é tão grande assim
chega a ser pequenino e triste
o sentimento que carrego em mim.


Perto de tudo o que existe,
a solidão nem é tão ruim
porque amar você consiste
em tê-lo bem longe de mim.

Perto de tudo o que existe,
nem parece distante o fim
dessa dor, que persiste,
em matar você em mim.


Mas não pense que existe
para mim outro arlequim
no máximo um pierrôt, que insiste,
em provar seu amor por mim
mas acho que ele desiste
se você voltar pra mim.

Ass.: Colombina

Arlequim para Pierrôt:

Caro Pierrôt,
Não posso mais esconder.
Preciso de você.
Vamos esquecer Colombina,
aquela ingrata menina
e fugir para longe,
além do horizonte.
Você sabe que quer.
Amo você.

Ass.: Arlequim.

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Moral (?): O amor nos tempos modernos é mais difícil que qualquer história de Romeu e Julieta.

terça-feira, 1 de março de 2011

Loba II

Bebo o vinho na taça,
derramo seu sangue na praça.

Beijo-lhe os olhos de pavor,
rasgo sua carne com ardor.

E quando te encontro às traças,
choro em seu peito desgraças.

(Acordo com os dentes na caça;
escorrem as lágrimas de terror)

A lua matou meu amor.
A faca cessou minha dor.

Loba

Em noites como essa te amo uma imensidão.
Mas quando a lua se completa, te devoro sem perdão.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Esperando o carnaval


Amor, sinto saudade.
Mal posso esperar pra te abraçar,
quando o carnaval chegar.

Será que ainda tens a mesma vontade?
de me beijar e me agarrar,
de não soltar?

Nunca mais te vi passar
nos blocos dessa vida louca
mas guardo sua voz rouca,
do bonde a me gritar:

"Quando o carnaval chegar, quando o carnaval chegar!"

Desde então foram tantos,
não consulta os calendários?
Festejei os aniversários
do nosso amor, aos prantos

De novo o carnaval vai chegar,
e eu aqui, esperando você voltar.
Mas amor, cansei de esperar.
Estou deixando meu bloco passar.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Expediente

Tomou a xícara de café, digitou no computador, atendeu telefone, imprimiu texto, desceu de elevador, olhou no relógio, entregou texto, subiu de elevador, voltou pro computador, digitou mais textos, retornou ligação, tomou mais um café, digitou mais texto, abriu e-mail, mandou e-mail, digitou texto, revisou texto, tomou outra xícara, digitou, atendeu o celular, olhou no relógio, organizou pasta, procurou pasta, atendeu telefone, digitou texto, revisou texto, imprimiu texto, comeu um lanche, olhou no relógio, olhou no relógio, olhou no relógio.

Quando deu o fim do expediente, abriu a janela e saiu voando, de volta pra casa.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Verão em Cores

Sobre o azul forte o amarelo irradiava e embaixo o verde secava o outro azul evaporava e o marrom esturricava e no preto derretia o rosa que melara a mão pálida que agora ia aos lábios vermelhos que não os dele e os vermelhos lamberam o suor transparente e depois saliva encontrou saliva e os dois derreteram sob o azul imponente sem nenhuma branca por perto.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Circo

Já tinha tempo que se olhavam. Só assim, de longe. Nem se falavam. Ele não era ninguém, e ela... Ela era todo mundo.
Ela era tudo e ele era nada naquele circo. Quase não existia. Seu riso há muito se fora. E no rosto do velho palhaço, só tristeza havia.
O que ele não sabia, é que ela também não sorria. Dançava no picadeiro, fazia mil piruetas. Mas em seu coração, muita solidão sentia.
"Sou só um pobre vagabundo", ele pensava. Mal sabia que de longe, ela sonhava, que um vagabundo a amava.
Ele um dia foi palhaço. Ela era a bailarina do circo. Ele nunca foi rico. Ela nunca ganhou um abraço.
E quando numa noite o circo pegou fogo, os dois se olharam no meio das chamas. Deram-se as mãos e fugiram das flamas. Longe, enfim sorriram. E deram fim a seus dramas.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Classificados

Procura-se um coração.
Vermelho-sangue, tamanho médio, saudável.
Foi visto pela última vez nas mãos de uma moça descuidada.
Paga-se bem. Favor devolver com urgência.

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Encontrado coração.
Vermelho-sangue, tamanho médio, saudável.
Estava em uma lata de lixo, mas foi recuperado, lavado e bem-cuidado.
Não existe a inteção de devolução.
Oferece-se em troca outro coração em bom estado, mas desesperadamente necessitado de carinho.

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Procura-se lar para abrigar dois corações apaixonados.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano novo

Triiiim! Toca o telefone. Do outro lado do mundo ele atende.
- Alô?
- Feliz ano novo.
- Quem... Sofia?
- Liguei pra te desejar um feliz ano novo.
- Obrigado. Mas aqui o ano novo ainda vai começar.
- É, eu sei. Mas eu queria falar com você no horário daqui.
- Hum. Por que... por que você ligou?
- Eu disse. Pra te desejar um feliz ano novo.
- Eu sei, eu sei. Mas... tem tanto tempo que a gente não se fala.
- Oito anos. Foi uma sorte você não ter mudado de número.
- É. Puxa. Eu não sei o que dizer. Como você está?
- A mesma. Você me conhece. Eu é que não conheço mais você. Casou?
- Por que você acha que eu casei?
- Ah, sei lá. A gente parou de se falar por causa disso, não foi? Porque você ia casar. E a gente não podia continuar essa relação  distorcida e doentia. E aí eu fui pro outro lado do mundo pra garantir que a gente não ia mais se contaminar um com o outro e assim poderíamos ter vidas felizes e normais. Ou pelo menos normais. E então? Casou?
- Pois é. Casei. Mas separei. Não deu certo...
- É, eu imaginei que isso pudesse acontecer.
- Ah é?
- É. Eu também casei. Pensei que se você estava tentando algo diferente, eu devia tentar também. Aí conheci um australiano lindo e louco por mim. Casei.
- Casou?! Caramba... E aí?
- E aí que como você, também não deu certo. Acho que não nascemos pra isso.
- Bem... é algo duro pra se dizer. Se não nascemos pra nos casar como todas as pessoas normais, não estamos destinados a sermos felizes como as pessoas normais. Isso não é bom.
- Você... sempre com essa mania de querer ser normal. Nós podemos ser felizes. Só que do nosso jeito. Não como as pessoas impoem. Você é feliz?
- Eu? Bom... eu tenho um bom emprego. Moro num apartamento bom, de vista pro mar. Tenho dinheiro pra viajar. Acho que sim.
- Não. Se isso é tudo o que você tem pra dizer que é feliz, então você não é feliz.
- Não sou?
- Não! Você está tentando ser feliz do jeito deles, e nós dois sabemos que só podemos ser felizes do nosso jeito!
- E qual é esse nosso jeito?
- Bem. Vou exemplificar. Eu sou separada, trabalho num restaurante de fast-food, estou atolada de dívidas, acabei de perder meu carro e quaso perco minha casa num furacão ou seja lá como eles chamam isso aqui. Mas eu tenho amigos, vou à praia todos os dias, escrevo pequenos versos que não são lidos por ninguém e chocolate não falta na minha dispensa.
- Hum. Então isso é ser feliz pra você?
- É. Mais ou menos. Mas eu sei que ainda falta alguma coisa.
- E o que é?
- Ah. Você.
- ...
- Pensa bem. Você não é feliz, eu não sou feliz. Nós dois tentamos ser felizes como as pessoas normais e nos estrepamos. Precisamos um do outro. Precisamos provar que podemos ser felizes do nosso jeito.
- Você está dizendo que devíamos nos casar?
- Não, porque aí estaríamos sendo como eles.
- Eles, eles... ta bom, e então o que devemos fazer?
- Não sei. Só liguei pra desejar feliz ano novo. E dizer que ainda te amo.
- Bem... feliz ano novo. Eu ainda te amo. Também.
- Estou feliz agora. Mesmo a quilômetros e quilômetros de distância de você.
- É. Acho que eu também. Um feliz ano novo pra você.
- Igualmente. Até o ano que vem.
- Até... ano que vem?
- Surpresa.