Noite Dos Mascarados
(Chico Buarque e Maria Bethânia)
Quem é você?
Adivinhe, se gosta de mim
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
Quem é você, diga logo
Que eu quero saber o seu jogo
Que eu quero morrer no seu bloco
Que eu quero me arder no seu fogo
Eu sou seresteiro
Poeta e cantor
O meu tempo inteiro
Só zombo do amor
Eu tenho um pandeiro
Só quero um violão
Eu nado em dinheiro
Não tenho um tostão
Fui porta-estandarte
Não sei mais dançar
Eu, modéstia à parte
Nasci pra sambar
Eu sou tão menina
Meu tempo passou
Eu sou Colombina
Eu sou Pierrot
Mas é carnaval
Não me diga mais quem é você
Amanhã, tudo volta ao normal
Deixe a festa acabar
Deixe o barco correr
Deixe o dia raiar
Que hoje eu sou
Da maneira que você me quer
O que você pedir
Eu lhe dou
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Jogo
Você quer brincar?
Não basta saber as regras do jogo
Se for brincar com fogo
Saiba que vai se queimar
Tem certeza que quer jogar?
Olhe, tome cuidado
Você vai se magoar
Esteja avisado
Agora, se for mesmo brincar
Não vale depois sair
Sim, você vai chorar
Mas é melhor que aprenda a rir
Porque pra jogar esse jogo
Tem que ter malícia
Não dá pra bancar o bobo
Não espere só delícias
Vai doer, você vai ver
Vai machucar, vai te arrasar
Você vai sofrer. Pra valer.
Mas se souber brincar, vai se vingar.
E então? Quer jogar?
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Beija-Flor quer passear
(...)
Seja como for
A vida continua
Vou de flor em flor
E um dia encontro a sua
A vida continua
Vou de flor em flor
E um dia encontro a sua
Sem deixar de seguir meu caminho
Sem deixar de querer seu carinho.
(Mas quanto a eu e você,
isso depois a gente vê.
Agora só quero mesmo viver
e brincar de te esquecer)
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Cores que vou pintar
De lá trouxe lembranças, sorrisos, cheiros
E deixei saudades, marcas, beijos
Trouxe pra cá alegrias, abraços, desejos
E lá larguei tristezas, mágoas e dores
E agora de todas as cores
Quero pintar minha nova vida
Deixar pra trás as feridas
E só pensar em coisas bem coloridas
Mudar um pouquinho de tudo
E ver como vai ficar
Me transformar
Sem alterar a essência, contudo
Apenas uns retoques aqui e ali
Quem sabe até algumas pinceladas
Um pouco mais ousadas
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Tapa na cara
- ... Pior que estar dividida entre uma coisa e outra; é estar dividida entre nada e coisa nenhuma. A angústia é tão grande que você nem sabe o real motivo dela existir. Talvez o motivo seja o medo de descobrir que entre nada e coisa nenhuma não há escolha possível. Na verdade, nunca houve a opção de escolher entre um e outro, pois ambos não existem. E por isso vem a angústia. Porque é verdade, e você sabe. Só não quer enxergá-la. Não quer enxergar que inventou um universo de possibilidades irreais. Um universo de mentiras que parecem verdade. Mas quando você pára e vê... Vê que nada disso existe... Descobre que entre o nada e coisa nenhuma não existe saída, que era melhor nunca ter se feito essa pergunta, que era melhor ter continuado no caminho traçado e não criado um desvio...
E o pior é que você já sabe de tudo isso. Porque continua cometendo os mesmos erros. Sofrendo pelos mesmos motivos. Você não muda, não é mesmo? Parabéns. Ganhou o prêmio de sofredora do ano. E agora? O que vai fazer com isso? Vai continuar suspirando de angústia ou vai tentar mudar alguma coisa?
- Vou mudar...
- Muito bem. Agora pára de chorar e vá fazer alguma coisa de útil com sua vida. Quem sabe, vivê-la.
- É uma boa ideia... Sabe, da próxima vez... É melhor me dar logo um tapa na cara. É menos doloroso.
- Talvez. Mas de que adiantaria? Você não ia aprender, não é mesmo?
- Tem razão...
Limpa as lágrimas. Deixa a angústia de lado. Sai de casa, e vive sua vida.
Entre lembrar e esquecer
Foi tão rápido e tão vago que se não fico me lembrando a cada instante, quase esqueço que de fato aconteceu. E aconteceu mesmo? Ou foi apenas um sonho, mais um delírio para compor minha realidade imaginária?
Por outro lado, nem sei se é bom mesmo continuar lembrando. Não foi nada, na verdade. Aliás, nunca foi nada, não é mesmo? Melhor esquecer. Guardar numa caixa bonita e deixar escondido lá no fundo, num cantinho empoeirado. E talvez um dia, daqui a tantos anos, reabrir a caixa e verificar com alívio a concretização de um desejo passado.
E talvez... Talvez a profecia se cumpra e aquela caixa possa sair do canto empoeirado, receber nova pintura e poder abrigar as novas memórias que Vou tratar de esquecer... Pra quando lembrar, ter uma grande surpresa e poder rir e me deliciar com a descoberta.
Terei minha felicidade clandestina. Como naquele conto da Clarice.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Sobre Eternidade
Andei relendo uma crônica da Clarice Lispector, "Medo da Eternidade", com alguns amigos. Mais de 24 horas depois, o tema voltou a passear por meus pensamentos, numa conversa com outro amigo.
Aprendemos com a vida que tudo tem prazo de validade. Comida, bebida, cosméticos, remédios, relacionamentos, palavras (quem diz que palavras são eternas, deve pensar sob um outro aspecto: palavras são ditas e não se pode voltar atrás, é verdade; mas elas podem perder o sentido com o tempo, e aí por isso tem validade), sentimentos... Ora, até a própria vida.
Então significa que estamos acostumados com o fim das coisas? É claro que não... O prazo de validade é um fato, mas quem disse que é pra gostarmos disso? Então devemos idolatrar a eternidade, tão rara e efêmera? Não necessariamente...
Como Clarice diz na crônica, o chiclete dura para sempre, mesmo depois que o gosto doce já passou e só restou o grude azedo. Ele é eterno, não acaba nunca, mas não significa que ainda é prazeroso. Veja bem, não digo que a eternidade precisa ser amarga e que tudo o que é bom precisa ter um fim (embora às vezes seja isso mesmo).
Na verdade, o que eu queria dizer aqui é outra coisa. É sobre a duração das coisas sim, mas não em toda a existência delas; é sobre a eternidade em cada momento.
Momentos que são tão prazerosos que mesmo muito depois de já terem passado, tornam-se eternos pela lembrança que deixam. Momentos que podem nunca mais se repetir, e que precisam ser, portanto, eternizados de alguma forma. Momento é coisa tão efêmera que se não for eternizado, passa, é esquecido em seguida e deixa de ter a importância que tinha.
Já quis muito que alguma coisa durasse pra sempre, como todo mundo, e assim também já almejei a vida eterna. Mas olhando pelos aspectos negativos da eternidade, como faz Clarice na crônica, percebo que não quero nada disso de fato. Quero sim viver momentos maravilhosos, conhecer pessoas e lugares encantadores, escrever sobre tudo o que me dá vontade e ser reconhecida por isso.
Nada de lamentar que alguma coisa poderia ter durado mais ou menos, ou que não precisava ter acabado. Tudo dura o que tem que durar, cumpre seu prazo de validade eventualmente. Mas se a alegria se mantém a mesma ao revisitar aquele momento, sem arrependimentos nem mágoas, é só o que importa. O momento já está guardado. Já está eternizado. Pra quê desejar que tivesse durado mais ou menos? Voltar ao passado está fora de cogitação, e se não agradou, não merece a eternidade, pronto.
Pra alguns, só momentos muito específicos merecem a eternidade. Pra mim, bom mesmo é eternizar cada uma das coisas boas que se vive, sem uma hierarquia obrigatória, num caderno de lembranças que vai sendo atualizado a cada novo dia, a cada nova experiência prazerosa.
Assim, as coisas se tornam eternas, ainda que respeitando as regras do prazo de validade. Mas sem amarguinho no fim.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Relato de um fato imaginário com resquícios de vinho tinto
Aconteceu. Não lembro bem se foi no meio das escadas ou dentro do elevador; não importa, na verdade. Só sei que com certeza foi em um desses dois espaços de transição, como sempre imaginei que seria, bem no meio, entre uma coisa e outra (que no fundo, não é uma coisa, nem outra).
Mas gostei assim mesmo. Desse ser e não-ser. Dessa certeza e incerteza. Desse amar e não-amar. Desse meio-termo que inventamos desde o início, “pra não complicar”.
No fim, sei que aconteceu. Enfim. E não sei se foi bom ou ruim. Se foi melhor ou pior. Se cumpriu as expectativas. O que importa, de verdade, é que já não é mais alguma coisa imaginária, impraticável, indizível, impossível.
Pronto. Aconteceu.
E agora? E agora… Agora nada. Agora espera. Agora deixa. Agora já foi.
Já passou…
Mas se passar de novo, não faço objeção.
Mas gostei assim mesmo. Desse ser e não-ser. Dessa certeza e incerteza. Desse amar e não-amar. Desse meio-termo que inventamos desde o início, “pra não complicar”.
No fim, sei que aconteceu. Enfim. E não sei se foi bom ou ruim. Se foi melhor ou pior. Se cumpriu as expectativas. O que importa, de verdade, é que já não é mais alguma coisa imaginária, impraticável, indizível, impossível.
Pronto. Aconteceu.
E agora? E agora… Agora nada. Agora espera. Agora deixa. Agora já foi.
Já passou…
Mas se passar de novo, não faço objeção.
Assinar:
Postagens (Atom)