sábado, 9 de janeiro de 2010

Metades

Noite. Ela está sozinha na varanda. A única luz é a do computador que a deixa ligeiramente azul e a dos outros prédios lá longe. Sem nada pra fazer e vontade nenhum de dormir, joga Paciência e observa a lua surgindo por trás de um edifício, linda, branca e cheia. Pega o celular e liga. A voz masculina atende.
Ela: Oi.
Ele: Oi. Tudo bem?
Ela: É, tudo bem. Tudo normal. Sem graça.
Ele: Hum. As férias não estão boas?
Ela: Ná... Nada novo. Nada interessante. Me sinto sozinha longe dos meus amigos.
Ele: Hum. Que chato. Se eu não fosse seu ex-namorado, ia aí te visitar.
Ela: É.
(Pausa)
Ela: Sabe. Se você fosse meu ex-namorado, não seria nada meu.
Ele: Hum, não poderia ser seu amigo?
Ela: Não. Porque se a gente não tivesse namorado, nunca teríamos nos conhecido, nunca teríamos sido amigos. E o fato de sermos amigos agora não ofusca nem um pouco o principal fato de sermos ex-namorados. Como você mesmo disse: "se eu não fosse seu ex-namorado". Seremos para sempre exes. É o status que define mais. Mais do que dizer "eu namorei ele/ela", é dizer "ele/ela é meu/minha ex".
Ele: Hum. Se essa é a sua teoria... acho que sim.
Ela: Eu estou filosofando. Filosofe comigo.
Ele: Ah... Se é assim. Você tem razão; no fundo sempre seremos exes.
Ela: As coisas ganham reforço quando já não são mais.
Ele: É claro. Então, você acha que nós poderíamos ser amigos sem ser namorados? Se noc conhecêssemos em outra ocasião?
(Pausa)
Ela: Não sei. Não sei. Talvez estivéssemos destinados a ser namorados e nada mais. Se fôssemos amigos, seríamos só amigos, não amigos verdadeiros, daqueles que não nos perdemos nunca; amigos só, que você pode facilmente esquecer e não sentir falta.
(Riso dele)
Ele: Ah, é?
Ela (séria): É. Ou nos apaixonaríamos inevitavelmente, e aí já não seríamos amigos só nem amigos verdadeiros, seríamos namorados do mesmo jeito.
Ele: É, acredito bastante na sua teoria.
(Pausa. Ela olha pra lua. Já tinha subido tanto que quase não a via mais. Fez mais um movimento na Paciência do computador. Perdeu)
Ela: E o que será que acontece com exes que deixam de ser exes? O que dizer um do outro? "Esse é meu namorado" ou "foi meu namorado" ou "foi meu ex". "Esse é meu ex-ex-namorado". Esse status não existe.
Ele: Status é uma questão muito importante pra você?
Ela: É. Pros outros. Mas como eu ia dizendo... as pessoas não compreendem, eles mesmos não compreendem, ficam num limbo.
(Riso dele)
Ele: Não existe isso. Se eles voltaram, voltaram.
Ela (ignorando-o): Não são namorados nem são exes. Já foram ambos e não tem como voltarem a ser um ou outro somente. Ou ficam sempre no passado, lembrando como eram felizes como namorados e infelizes quando exes; ou criam uma nova categoria, abandonando para sempre o passado, passando uma borracha, e só pensando no futuro.
Ele: Você está complicando as coisas. Ou é ex ou não é. Ex-ex é namorado. E ponto. Não é?
(Pausa curta)
Ela: Menos com menos dá mais. Você tem razão.
Ele: Eu sei.
Ela: Nesse ponto, minha teoria tem uma rachadura. Acho que quando exes voltam a ficar juntos, sempre procuram esquecer o passado. Mas só pensa no futuro não seria uma maneira de negar o que viveram juntos antes?
Ele: Tudo é uma negação de outra coisa.
Ela: Negar o passado é dizer sim ao futuro. E negar o futuro é viver para sempre no passado. E se vivemos no passado, não vivemos. Apenas contemplamos o que já foi vivido e não pode ser mudado. Morremos!
Ele: O namoro é a negação da solidão, o solteirimos é a negação do compromisso. E assim por diante.
Ela: Por outro lado, tudo é uma afirmação de alguma coisa também. O namoro é a afirmação do compromisso, e o solteirimos a afirmaçaõ da solidão. Também é possível enxergar tudo ao contrário. Porque o oposto de um é o um do oposto. E no fim tudo acaba se completando. Se somando.
Ele: Nenhuma informação é completa; todas são metades de dois pontos de vista.
(Pausa)
Ela: Mas as metades se completam. Todos somos metades. Buscando nossas outras metades.
(Risos dele)
Ele: Metades da laranja?
Ela (séria): Não. Algo mais profundo que realmente nos faça sentir inteiros. E quando acreditamos que nossa metade está no outro, quase sempre erramos.
(Pausa curta. Ele pensa nas aulas de sociologia, mas ela volta a falar antes que ele possa compartilhar esses conhecimentos)
Ela: Porque é muito raro uma metade encontrar outra metade e ambas quererem se completar da mesma maneira.
Ele: Essa metade perfeita não existe...
(Pausa longa. Bocejos)
Ela: Como vai sua namorada?
Ele: Vai bem, obrigado. E você, já encontrou sua metade?
Ela: Não, ainda estou procurando. Mas agora vou ser menos exigente: a metade perfeita não existe, né.
Ele: É, não existe.
(Pausa)
Ela: Sabe, em algum momento nós fomos perfeitos um pro outro.
Ele: Sim, fomos. Por um momento que achávamos que ia durar pra sempre.
Ela: É, mas não durou. Acho que essas coisas tem prazo de validade, no fim das contas.
Ele: É uma boa teoria. Mas como você explicaria os felizes e duradouros relacionamentos?
(Bocejo dela)
Ela: Não explico. Hoje não. Já estou com sono. Fica pra outro dia.
Ele: Tudo bem. Já está tarde mesmo, vai dormir pra acordar bem disposta amanhã. Pegar uma praia. Encontrar uma metade dando sopa.
Ela: Hum, ótima idéia. Vou pensar no caso.
(Pausa curta para mais um bocejo dela)
Ela: Boa noite, metade - de algum morango, laranja, ideologia ou coisa que o valha.
Ele (rindo carinhosamente): Boa noite.
Ela desligou o telefone. Olhou pro céu. A lua sumiu. Olhou pros prédios. Poucas luzes ainda acesas. Olhou pro computador. "Fim de jogo" escrito na tela da Paciência. Desligou. Apagou as luzes, foi pro quarto. Dormiu.
Em seu sonho, duas metades há muito separadas se uniam, ficando imperfeitas: juntas, mas imperfeitas.
Na manhã seguinte acorda, e não se lembra de nada.

3 comentários:

docedeclinio disse...

É uma história boa e leve e imersa, continue assim que seus contos vão ficar cada vez melhores - isto é, você tá começando a captar as sutilezas que intrigam o leitor. Like Hemingway.

Soraia Alves disse...

Parabéns pelo texto...


beijos

Talita disse...

Texto delicioso de se ler,
Que encontre sua metade,
;*