domingo, 17 de janeiro de 2010

Sapos


Começa devagar. Você quase não nota. Uma palavra incômoda ali - mas você fica quieto, não é nada. E engole o seu primeiro sapo.

O tempo vai passando e você vai se acostumando com o pequeno infortúnio. As palavras machucam, mas você empurra esse sapo pra dentro da garganta com um sorriso no rosto. Não tem problema, é para um bem maior - a 'felicidade geral da nação'. Melhor deixar assim. Estamos todos bem, não é?

Mais tempo passa e você se pergunta quando é que isso vai parar. Será que realmente faz sentido engolir tantos sapos, de uma vez? Você já está acostumado, mas será que tem que ser assim pra vida toda? Você começa a ficar cansado, o gosto deles passando da sua garganta para o estômago não é agradável de maneira alguma - mas você continua engolindo, para manter a paz, a amizade, a união ou seja lá qual for o bem maior.

O tempo passa e você percebe que só engoliu e não falou nada. Não disse nada do que estava pensando, para não prejudicar, para não machucar. Manteve-se quieto durante todo esse tempo, só engolindo os sapos. Mas você está cansado, todos não tem o direito de expressar o que pensam, o que sentem? Você não quer mais engolir sapos - isso não está certo.

E então acontece; eles tentam te enfiar pela goela, à força, o maior dos sapos que você já viu em toda a sua vida. Eles estão certo de que você vai engolir; já está acostumado mesmo. Mas você surpreende. Mais um, não. Agora chega!

E como um vulcão que esteve há muito adormecido, você explode, soltando pela boca ao invés de lava, todos os sapos que andou englindo durante todo esse tempo. Todos ficam assustados. Os sapos parecem as pragas do Egito. Todos estão com medo. Ninguém imaginava que você fosse capaz de se revoltar. Ninguém esperava que você se revoltasse. O seu trabalho era engolir os sapos. Mas você se cansou disso. Tomou suas próprias decisões.

Seu estômago não está mais cheio de sapos, e ninguém mais te força a engoli-los. As pessoas agoram temem falar com você - não é medo de você; mas medo de que você não engula mais os sapos. E aí elas perdem todo o poder que tem sobre você.

E de repente, você está livre.

Chega de sapos. Sapos, nunca mais.

2 comentários:

Hélder disse...

O mais incrível desta crônica, além da sua qualidade, foi como foi escrita, em muito pouco tempo e eu alimentando o assunto, perto e sem saber...muito legal mesmo! Isto demonstra toda a criatividade e habilidade desta escritora maravilhosa...bjks sempre saudosas o papai

docedeclinio disse...

Gosto mais ou menos desse texto.
É bom, mas, não sei.

E detesto com todo meu enojamento este sapo da foto.