segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O tempo passa ? Não passa - C.D.A.

O tempo passa ? Não passa


no abismo do coração.


Lá dentro, perdura a graça


do amor, florindo em canção.




O tempo nos aproxima


cada vez mais, nos reduz


a um só verso e uma rima


de mãos e olhos, na luz.




Não há tempo consumido


nem tempo a economizar.


O tempo é todo vestido


de amor e tempo de amar.




O meu tempo e o teu, amada,


transcendem qualquer medida.


Além do amor, não há nada,


amar é o sumo da vida.




São mitos de calendário


tanto o ontem como o agora,


e o teu aniversário


é um nascer a toda hora.




E nosso amor, que brotou


do tempo, não tem idade,


pois só quem ama escutou


o apelo da eternidade.



Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

19/10/2011

Quero viver bem mais que o tempo
que a sua presença durará
em minha memória,
retomando
em pensamento
toda a glória
do momento
anterior ao fim
da nossa história

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Quantos

Quantas cores tem a vida
pelas lentes dos seus olhos?

quantas vidas se estendem
nas manhãs dos seus abraços?
quantos braços tem o amor
quando me envolve em seus compassos?

quantos sons compõem a música
do seu sorriso adormecido?
quantos sonhos se espalham
no seu andar distraído?

quantos passos cabem dentro
da distância que nos separa?
quantos espaços são preenchidos
quando seu beijo me cala?

quantos beijos são necessários
para fazer passar a dor?
quantos risos são indispensáveis
pra colorir o meu humor?

São perguntas que me faço
quando em você fico a pensar
enquanto espero seu chamado
para me ensinar a cantar

sobre os amores que são como pássaros
e os pássaros que são como flores,
e sobre as flores que margeiam o caminho
pro meu coração cheio de espinhos.

Não me deixe a esperar
sozinha com meu canto
porque se demorar
o canto vira pranto

E não vão mais importar
todos esses quantos
só um vai me importunar:

quanto tempo vai levar
até você vir me salvar?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A mosca

Com a luz do sol a penetrar por entre o vidro das janelas, é possível saber que lá fora é verão e faz calor. Do contrário, só se poderia imaginar, já que dentro a temperatura beira os menores graus da escala Celsius. Uma mosca voa agoniada pela sala, batendo repetidamente no vidro que mostra o mundo acalorado lá fora, tentando assim inutilmente escapar do frio que não lhe é natural.


Eu mesma muitas vezes me identifico com essa mosca, não em relação a uma situação climática desfavorável, mas em relação a diversas situações angustiantes. Muitas vezes me vejo (e, acredito, muitos outros também) desesperada a lutar contra uma barreira invisível que me permite enxergar meu objeto de desejo, mas cujo caminho para lá chegar não consigo distinguir. Saber o que queremos muitas vezes é difícil, mas uma vez que ultrapassamos esse obstáculo, descobrimos muitos outros pelo caminho. É muito mais fácil bater de cara no vidro do que descobrir um caminho que nos leve para onde queremos ir.


A mosca sumiu. Das duas uma: ou encontrou seu caminho, ou desistiu da vida.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A (c)idade

03/10/2011

A cidade
é como a gente
muda conforme a idade

Ora se diz contente
ora procura a felicidade

Constrói monumentos
Demole sentimentos

Busca se reinventar
a cada ano que passa
querendo apenas encontrar

Algúem que ame suas praças
e com quem compartilhar
da vida, todas as graças

Inspiração

30/09/2011


Quanto mais eu a persigo, mais ela me escapa. Inspiração é coisa fugaz, não é fácil de ser capturada. É preciso estar em condições muito favoráveis para que ela se chegue sem ir embora rapidamente. Tais condições são:


- ter papel e caneta sempre à mão
- estar em contato com elementos inspiradores (natureza, música, livros, sentimentos, etc.)
- ter a mente aberta para que entrem toda a sorte de pensamentos


Aí então é capaz que uma inspiração se faça presente, mas raramente ela vem materializada diante de nós. É como um enigma que temos que decifrar. Como manifestá-la é a pergunta mais problemática. Já perdi muitas inspirações por não conseguir decifrar o modo que deveria utilizá-la. Senti o sopro artístico sobre mim, senti que algo de bom sairia se meus dedos se pusessem a escrever. Mas no mesmo instante perdi todas as palavras que conhecia e não soube como expressar a inspiração que me dominara. Aos poucos, sem meio em que pudesse se materializar, vi a energia criativa se esvaindo, indo embora para outro canto, para outro artista mais bem preparado.


Desde então a inspiração me sorri poucas vezes, e nas mais inoportunas, quando estou ocupada com outros assuntos, distraída com meus sentimentos. Tento rabiscar qualquer coisa que me vem à mente, mas não consigo ir adiante – é difícil escrever em um ônibus em movimento, ou mesmo quando se está andando. Foi-se o tempo em que meus sentimentos mais simples conseguiam despertar cargas e mais cargas de inspiração, impulsionando meu cérebro, minha escrita, traduzindo toda essa energia criativa em belos poemas e contos. Agora mal consigo terminar uma história, pequena que seja, e meus poemas não passam da primeira estrofe. Meus sentimentos já não me dizem nada, e desconfio até que andam mesmo adormecidos, anestesiados.


E quem não sente não escreve.