sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano novo

Triiiim! Toca o telefone. Do outro lado do mundo ele atende.
- Alô?
- Feliz ano novo.
- Quem... Sofia?
- Liguei pra te desejar um feliz ano novo.
- Obrigado. Mas aqui o ano novo ainda vai começar.
- É, eu sei. Mas eu queria falar com você no horário daqui.
- Hum. Por que... por que você ligou?
- Eu disse. Pra te desejar um feliz ano novo.
- Eu sei, eu sei. Mas... tem tanto tempo que a gente não se fala.
- Oito anos. Foi uma sorte você não ter mudado de número.
- É. Puxa. Eu não sei o que dizer. Como você está?
- A mesma. Você me conhece. Eu é que não conheço mais você. Casou?
- Por que você acha que eu casei?
- Ah, sei lá. A gente parou de se falar por causa disso, não foi? Porque você ia casar. E a gente não podia continuar essa relação  distorcida e doentia. E aí eu fui pro outro lado do mundo pra garantir que a gente não ia mais se contaminar um com o outro e assim poderíamos ter vidas felizes e normais. Ou pelo menos normais. E então? Casou?
- Pois é. Casei. Mas separei. Não deu certo...
- É, eu imaginei que isso pudesse acontecer.
- Ah é?
- É. Eu também casei. Pensei que se você estava tentando algo diferente, eu devia tentar também. Aí conheci um australiano lindo e louco por mim. Casei.
- Casou?! Caramba... E aí?
- E aí que como você, também não deu certo. Acho que não nascemos pra isso.
- Bem... é algo duro pra se dizer. Se não nascemos pra nos casar como todas as pessoas normais, não estamos destinados a sermos felizes como as pessoas normais. Isso não é bom.
- Você... sempre com essa mania de querer ser normal. Nós podemos ser felizes. Só que do nosso jeito. Não como as pessoas impoem. Você é feliz?
- Eu? Bom... eu tenho um bom emprego. Moro num apartamento bom, de vista pro mar. Tenho dinheiro pra viajar. Acho que sim.
- Não. Se isso é tudo o que você tem pra dizer que é feliz, então você não é feliz.
- Não sou?
- Não! Você está tentando ser feliz do jeito deles, e nós dois sabemos que só podemos ser felizes do nosso jeito!
- E qual é esse nosso jeito?
- Bem. Vou exemplificar. Eu sou separada, trabalho num restaurante de fast-food, estou atolada de dívidas, acabei de perder meu carro e quaso perco minha casa num furacão ou seja lá como eles chamam isso aqui. Mas eu tenho amigos, vou à praia todos os dias, escrevo pequenos versos que não são lidos por ninguém e chocolate não falta na minha dispensa.
- Hum. Então isso é ser feliz pra você?
- É. Mais ou menos. Mas eu sei que ainda falta alguma coisa.
- E o que é?
- Ah. Você.
- ...
- Pensa bem. Você não é feliz, eu não sou feliz. Nós dois tentamos ser felizes como as pessoas normais e nos estrepamos. Precisamos um do outro. Precisamos provar que podemos ser felizes do nosso jeito.
- Você está dizendo que devíamos nos casar?
- Não, porque aí estaríamos sendo como eles.
- Eles, eles... ta bom, e então o que devemos fazer?
- Não sei. Só liguei pra desejar feliz ano novo. E dizer que ainda te amo.
- Bem... feliz ano novo. Eu ainda te amo. Também.
- Estou feliz agora. Mesmo a quilômetros e quilômetros de distância de você.
- É. Acho que eu também. Um feliz ano novo pra você.
- Igualmente. Até o ano que vem.
- Até... ano que vem?
- Surpresa.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Você

Quem é você?



Que surge do nada

irrompe em meus sonhos

me deixa abalada?



Quem é você?



Que me vira do avesso

bagunça meu sono

com seu beijo travesso?



Quem é você?



Que me tira do sério

com seu jeito risonho

me dizendo impropérios?



Seja quem for,

quero seu amor.

Vem, chegue de mansinho,

cheio de carinho,

me dê um beijinho

pra sarar a dor.

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Estou começando a esquecer, tenho a impressão de já ter escrito algo muito parecido. Mas como não encontrei o poema, fica esse novo, com um quê de repetição (que talvez seja só implicância minha); mas afinal, o que é que eu faço nesse blog a não ser me repetir, discursando over and over again sobre meus sentimentos que são sempre os mesmos? Pelo menos me trazem palavras bonitas.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Tarde Demais Para Esquecer

Depois de assistir Sintonia de Amor (Sleepless in Seatle) 352 vezes, finalmente assisti ao filme que a personagem de Meg Ryan tanto se refere: An Affair to Remember (Tarde Demais Para esquecer), com Cary Grant e Deborah Kerr. Aqui estão algumas das minhas frases preferidas (vou precisar assistir novamente para lembrar de outras frases):
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Nickie Ferrante: Esteve chorando?
Terry McKay: É. A beleza tem esse efeito sobre mim
 
"É preciso haver algo entre nós, mesmo que seja um oceano"
- Nickie Ferrante
 
“O inverno deve ser frio para aqueles que não tem memórias quentes…”
- Terry McKay

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Quase Sem Querer

Tenho andado distraído,


Impaciente e indeciso

E ainda estou confuso,

Só que agora é diferente:

Estou tão tranqüilo e tão contente.



Quantas chances desperdicei,

Quando o que eu mais queria

Era provar pra todo o mundo

Que eu não precisava

Provar nada pra ninguém?!...



Me fiz em mil pedaços

Pra você juntar

E queria sempre achar

Explicação pro que eu sentia.

Como um anjo caído

Fiz questão de esquecer

Que mentir pra si mesmo

É sempre a pior mentira,

Mas não sou mais

Tão criança a ponto de saber tudo.



Já não me preocupo se eu não sei por que.

Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê

E eu sei que você sabe, quase sem querer

Que eu vejo o mesmo que você.



Tão correto e tão bonito;

O infinito é realmente

Um dos deuses mais lindos!

Sei que, às vezes, uso

Palavras repetidas,

Mas quais são as palavras

Que nunca são ditas?



Me disseram que você

Estava chorando

E foi então que eu percebi

Como lhe quero tanto.



Já não me preocupo se eu não sei por que.

Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê

E eu sei que você sabe, quase sem querer

Que eu quero o mesmo que você.

 
Legião Urbana
 
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Amo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Palpitação

- Sinto uma palpitação estranha toda vez que estou com ele. E quando estou longe e penso nele também. Às vezes uma falta de ar, uma coisa que não sei explicar. E minha cabeça fica pesada e gira, gira... É tão estranho! Não consigo respirar. E não sinto voltade de fazer nada até ele voltar. E tenho umas vontades estranhas, de sair voando, de correr sem parar, de deitar sob o sol... Será que estou enloquecendo? Será que estou morrendo?
- Não. Só está amando.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Magritte


- Você e eu, somos iguais àquelas maças ali. Verdes demais para saber amar e inseguros demais para nos mostrar.
- Discordo completamente.
- Que bom.

Na chuva [2]

De novo cai a chuva para anunciar mais um passo que damos juntos, os pés enxarcados, mergulhados em águas passadas. Você diz que é preciso lembrar do passado, eu digo pra esquecê-lo e olhar o futuro.
- Anda, põe a sua mão na minha e entra no meu guarda-chuva, mais uma vez. Vamos pular as poças e as partes ruins dessa nossa história.
- Ruins? Foram todas tão lindas, recheadas de amargura.
- Doçura. Você é a única pessoa que eu conheço que acho bonito sofrer.
- Sofrer? Mas amor, eu estava falando em viver.
Você sorri e beijo seu nariz gelado. Damos as mãos e caminhamos na chuva, afogados desse nosso amor sabor chocolate: meio-amargo.

Soneto - II

Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em Taltal não amanhece ainda a primavera.

Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens a nações

tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.

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*Extraído de Cem Sonetos de Amor de Pablo Neruda, o melhor presente que eu poderia ganhar ultimamente, junto com mais outros quatro "livrinhos" sobre o amor.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tempo

Você tira os olhos do que está lendo e me pergunta o que estou fazendo. Observo um sapo coachar e experimento retê-lo em meus dedos. É difícil. Você pergunta se eu não deveria estar estudando praquela prova. É, eu deveria. Mas olha como esse sapo é grande, já viu outro assim antes? Não, você não viu. E ri, diz que eu vou ser reprovada. Não gostei, gostava mais quando você mentia e dizia que eu ia tirar dez. E daí se aquilo era no tempo de criança? Pra mim o tempo não passou, pra você aí já é outra história. Anda, vai, estuda, lê mais um pouco, faz um esforço. Mas eu estou fazendo o maior esforço do mundo pra segurar esse sapo, a pele dele é gelada e escorrega, não ta vendo? Você me sorri e diz que me ama. E que desse jeito eu não vou passar de ano nunca. Mas eu bem nem quero passar de ano. Esse ano foi tão bom, pra quê passar pra um outro, novo, diferente, desconhecido? Vamos, me ajude a pegar esse sapo, deixa os livros pra lá, vamos ficar nesse tempo pra sempre! Você diz que eu devia me casar com o Peter Pan. Eu não concordo, por que estamos falando em casamento? Nada, nada, besteira. Deixa eu te ajudar com esse sapo. Corremos atrás, ele pula, ele coacha, ele escorrega por nossos dedos. Que nem esse tempo que teima em passar. E quando percebo não estamos mais no meu jardim estudando para as provas finais, você tem um emprego e eu tenho um marido. O nome dele não é Peter Pan e eu não tenho mais vontade de ser criança. Agora eu tenho uma criança. E agora é você que está atrás daquele sapo.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Seus Olhos

Vejo você dormindo, sorrindo, tão lindo. Me assusta o que seus olhos enxergam por trás das pálpebras fechadas, me assusta não ter mais controle do que preciso. Mas não ligo, não muito, vejo você sonhando e te beijo a testa de leve, aperto mais a sua mão na minha e me aconchego no seu abraço, encosto meu crânio no seu, na inútil tentativa de compartilhar de seus pensamentos.
 
De dia, com seus olhos abertos, me assusta quando eles se perdem e ficam longe, e mais ainda quando voltam de repente, ignorando a ausência. Adoro seus olhos quando me olha, mas tenho medo, tanto medo, desvio os meus, e me pergunto se também compartilha do mesmo medo que eu, de não saber o que eu penso quando não te olho.
 
Agora dormindo, vejo seus lábios, tão lindos, curvados para cima. Me pergunto com que sonhas, com quem sonhas, e os beijo na ânsia vã de aprender seus desejos e saborear essa felicidade do seu sorriso. Tenho medo dessa felicidade sumir quando acordar.
 
Tenho medo dos seus lábios quando falam comigo, quando sussuram no meu ouvido. Medo por não saber ler nas entrelinhas da sua boca, de não entender a frequência do som soprado nas minhas orelhas. Mas como gosto quando falas comigo, como gosto.
 
Te amo.
Mas temo.
Temo te amar,
e porque te temo,
te amo.

Fuga

Preciso fugir.
Não é de casa ou do caos ou da vida.´
É do drama.
Mas quem disse que consigo viver sem ele?

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Chuva de Verão

Dá e passa.
Desaba o mundo em forma de água,
berra o céu em forma de trovão.
Cai a chuva com toda graça,
Molha tudo e depois passa.
Chuva de verão: dá e passa.
Essa promíscua,
ameaça, ameaça
Cai. Mas passa.
Hoje esperei pela chuva de verão, o guarda-chuva na bolsa, você na minha mão. Olhei pro céu
tocando sua pele macia, você ria, mas a chuva não veio. Esperamos a chuva e ela não veio.
Mas quando o seu lábio roçou no meu, senti um pingo.

Luiza - Tom Jobim

Rua,
Espada nua,
Boia no céu imensa e amarela
Tão redonda lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E num silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas
Escuta agora a canção que fiz
Pra te esquecer, Luiza
Eu sou apenas um pobre amador
Apaixonado
Um aprendiz do teu amor
Acorda amor
Que eu sei que embaixo dessa neve mora
um coração

Vem cá, Luiza
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Com um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza
Luiza
Você não esperava, eu sei que não, não esperava nenhum momento dessa noite, você, que acha que sabe tudo sobre mim. Não, você não sabia o que estava por vir, não sabia o que eu ia pedir. Pedi uma cerveja e você se espantou, logo eu, que não bebo nem refrigerante. Mas eu pedi uma cerveja e você se assustou, mas não deixou por isso mesmo, pediu mais um copo e bebeu, comigo, brindou. Brindamos, a quê, não me lembro faz tempo, umas horas, talvez, mas muito mais no calendário do álcool. Brindamos à vida, deve ter sido isso, e sorrimos, bebendo. Você me olhou, ainda sem acreditar, eu ali, naquela virgindade alcóolica ainda, tão menina, tão menina, mas tão moça, tão moça. Você não viu o tempo passar, você não viu a idade chegar, e agora olha só, a distância diminuiu, você e eu, ainda não estamos no mesmo lugar nem nunca vamos estar, mas já está mais perto, não há como negar. Então pare de fugir de mim, pare de ser tão assim.

(mas nunca deixe de ser assim, porque é como gosto de você, tão assim, tão doidim, tão lindim, que é como eu quero você, todinho assim, pra mim)
- Será que vale a pena?

Você me pergunta, e eu respondo: sempre vale a pena quando a alma não é pequena. Sei que o verso não é meu, mas que importa, somos todos poetas, vivemos todos do mesmo ganha-pão, as palavras, essas ingratas, que muitas vezes nos põe no chão.

Vale a pena, eu te digo, por que não valeria? Somos jovens, apesar da sua insistência em se clamar mais velho, vá lá, tudo bem, você é velho, mas e daí? Eu digo que nós dois, juntos, somos jovens e podemos o que quisermos.

Você pergunta por que vale a pena e eu digo simplesmente que vale e pronto. Dói tanto assim? Não dói. É tão difícil? Não é. Vai mudar nossas vidas completamente? Só se a gente quiser.

As coisas não precisam ser assim tão difíceis, enroladas, complicadas. Elas podem ser exatamente do jeito que são. Uma flor é uma flor e ponto. Um beijo é um beijo e ponto. Não é preciso ir além disso.

Você me pergunta se vale a pena. Eu digo que vale. Eu grito que vale. É claro que vale. Meu amor, se a vida não vale a pena, de que adianta eu estar aqui escrevendo tudo isso às 01:55 da madrugada? Vamos lá, deixe de ser temeroso, viva e pronto, não faça perguntas.

Beba este último copo comigo e vá para a cama, sem perguntar se a alma é pequena e se viver vale a pena. Se eu digo que vale, assim, agora, acredite, é a mais pura verdade.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

(Sem) Explicação

- Não entendo essa sua mania de me mandar SMS sabendo que eu nunca posso responder.
- Já lhe ocorreu que eu talvez não procure respostas?
- Não. Explique-se.
- As mensagens que eu escrevo não tem pretensão de conter um diálogo. São só palavras, coisas que eu penso e queria te dizer, ou dizer a mim mesma, aforismos. Encaro seu celular sem créditos como um poço sem fundo, onde eu jogo uma moeda e não a ouço cair; sei que ela está lá, mas não sei o que lhe aconteceu, se alguém sabe que dela, só sei que eu a joguei, eu a queria lá. É mais ou menos assim. As palavras que te escrevo, mesmo as mais constituídas de sentido, tem sua razão de não serem respondidas. Até porque mesmo quando nos encontramos, você não responde as minhas perguntas.
- É, eu sei. Mas você quer que eu responda? Tem coisas que eu simplesmente não sei o que falar. Acabo me escorando na defesa de não ter créditos e se não me manifesto, pode ser que eu não tenha lido, você não vai saber. Mas você também não me pergunta essas coisas de novo.
- É claro que não. Elas ficam no limbo da sua caixa de entrada. Como eu já disse, eu não procuro respostas. Procuro um meio de expelir essas palavras pra fora de mim, e acho o seu celular bem adequado para essa função. E depois, tem certas perguntas que não merecem, nem devem, ter respostas. Tem tanta coisa que eu poderia te perguntar, assim, cara a cara, mas tenho medo do que você vai responder. Pelas mensagens não corro esse risco. Sei que elas chegam, mas que não terão respostas. Se eu te digo agora, na lata, que te amo, o que você diz?
- Eu...
- Viu? Por isso prefiro as mensagens. Algumas respostas só magoam, não correspondem às nossas expectativas; às vezes nem existem, dependendo da coisa que se diz. Deixe minhas perguntas sem respostas, é melhor assim, pra mim e pra você.
- Como pode ser melhor? Eu juro que não te entendo.
- Eu sei, querido, eu sei. O dia em que eu encontrar alguém que me entenda me caso com a pessoa. Mas é provável que ela não goste do que entender de mim e queira distância. É por isso que eu gosto de você, assim, todo confuso, cheio de teorias, tentando decifrar meus segredos. Deixe as coisas como estão e o universo não vai explodir.
- ... Mas...
- O quê?
- E se eu quiser que meu universo exploda?
- ?
[beijo]

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

aquários

- São iguais. Não são o mesmo, mas são iguais. Talvez não na aparência nem nos modos, mas são iguais. Em quê, você pergunta. Em como me fazem sentir. Veja bem. Um eu vi primeiro e amei no mesmo instante. Delicado, sereno. Um pouco confuso, mas muito amável. Porém aos poucos foi me angustiando, cada acontecimento me fazia duvidar de sua função na minha vida. Mas eu continuei oferecendo chances e a cada nova chance, uma nova frustração. Saí magoada. Foi quando encontrei o outro. Era bem diferente, a princípio, nada de serenidade, meio obscuro. Mas gostei. Fui analisando aos poucos, lentamente, cada ângulo, até me convencer de que era uma boa escolha, de que valia a pena, de que seria diferente. Então veio a primeira frustração. Alguma coisa que não deu certo. Me fiz de cega e não liguei. Mas depois vieram outras. E mais outras. E ele foi se mostrando cada vez mais confuso e menos amável, mas ainda assim eu sentia que queria amá-lo. Mas a frustração... ah, e quando percebi! Quando percebi que os dois eram iguais... que mesmo traçando caminhos diferentes eu tinha chegado a um mesmo lugar novamente, que estava novamente diante da primeira escolha que tinha feito, ou melhor, um reflexo da primeira escolha, eu percebi que...Percebi que eles me frustram. Mas não consigo deixar de me sentir atraída por eles.

- Ainda estamos falando de aquários?

Aquários

Gosto de aquários. Toda a vida tive fascínio por grandes tanques de água com corais, algas, conchas, pedras e repletos de peixes coloridos de diversas formas e tamanhos, de água doce ou salgada. Acho curioso ver os peixinhos nadando de um lado pro outro, comendo um pouquinho, nadando mais um cadinho, pra lá e pra cá, e só. Eu gosto de aquários.
Já tive três.
O primeiro quando ganhei, era nova ainda, não tinha muito jeito pra cuidar dos peixes, acabaram morrendo, não tive paciência, joguei fora tudo. Mas foi bom pra saber como era.
O segundo, já foi diferente. Escolhi um tanque bem bonito, grande, resistente, dei a ele o melhor lugar da casa, na estante da sala, bem visível, com muito destaque. Cuidei dos peixes, lindos, de cores bem vivas. Me dava a maior alegria aquele aquário, cuidei dele todos os dias por dois anos. Mas os peixes morreram. Os corais ficaram doentes. O lodo tomou conta de tudo. Tentei limpar bem, me livrei do que estava doente, comprei peixes novos. Mas não se adaptaram, morreram em poucas semanas e o aquário rachou por completo.
Na terceira vez já estava quase desistindo, não queria mais saber de aquários, dão muito trabalho. Mas então vi um daqueles redondos, pequenos, simples, de filme ou desenho animado. Achei tão bonito, tão singelo. Já vinha com um peixe dentro, pequenino, de rio, douradinho. Bonitinho. Levei pra casa.
Hoje ele fica sobre a cômoda, no meu quarto, e não tem nada de mais: só o peixe e umas pedras no fundo. Dou comida todos os dias e é o bastante. Às vezes fico triste e nos encaramos longo tempo, eu e o peixe, brincando de sério, tentando decifrar o pensamento um do outro. Depois ele volta a nadar e eu vou fazer outra coisa.
Aquários não me dão mais tanta alegria quanto antes, já não me dedico inteiramente a cuidar deles. Não vale tanto a pena assim. Agora gosto de flores e planejo ter um jardim. Mas esse meu último aquário, o redondinho, com o peixinho douradinho, ainda está lá, em cima da cômoda, e não me dá incômodo nenhum. Continua lá, vivinho, e eu também. Acho que esse aquário vai durar por um bom tempo. Talvez uns dez anos. Me disseram.

Caio de pé

Eu nunca amo pela metade, sempre por inteiro.
Meus dois pés estão sempre fora do chão. A cabeça? Nas nuvens.
Me entrego de uma vez só, nua, sem pudores, saltando sobre o desconhecido.
Sei que assim o impacto é maior, mas a queda tem qualquer coisa de bonito e triste.
Coisas tristes tem a estranha mania de serem bonitas e provocarem lágrimas.
Acho que sou como gato, tenho sete vidas (ou até mais). Caio de pé.
Caio, levanto, e me preparo para o próximo salto.
E quem sabe numa dessas não aprendo a voar.
O amor dá asas.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

B.V.

E quando eu não te vejo
lembro daquele beijo
tão furtivo,
mal curtido,
com sabor de vinho:
puro carinho

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Meu/Seu

Esse meu jeito de amar
esse meu jeito de mar
esse dom de cantar

que era tão meu
mas se perdeu
dentro do seu

Brisa

Adoro andar pelas ruas vazias
quando o céu está claro
e o sol ainda brilha

Gosto da brisa quente
que sopra meus cabelos,
levemente

E do vento que passa, levantando os vestidos, mas só um pouco, que vento forte é coisa da primavera, essa inconstante. E agora é verão.

O sol ardente
Põe minha pele quente
e queima a areia do chão

No céu, duas andorinhas
pequeninas, lindinhas
porque uma só não faz verão

E as ondas do mar se fundem no horizonte, confundem-se no meu vestido de nuvens, e no meu jeito de amar.

Que é só meu.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Conversa

- Queria ser uma música...
- Dance até virar uma.


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*saído de uma conversa com um certo L. Silva

Ontem/Hoje

É noite de novo hoje como foi ontem. Mas ontem não é como hoje. Hoje só tenho um copo nas mãos e uma dor de cabeça que não passa. Ontem eu tinha seus cabelos, seus lábios, à minha disposição. Hoje um cigarro entre os dedos. Ontem um riso entre beijos. Ontem você me sorria. Hoje minha cama está fria.

sábado, 13 de novembro de 2010

Desire

Aujourd'hui je voulais parler seulement en français.

C'est tout.

Bonne nuit.

(c'est très chic parler en français et très amusant aussi... mais je ne coinais pas suffisant cette langue magnifique... quelque jour je vous les écrire un poem... quelque jour, mon amour...)

domingo, 7 de novembro de 2010

Get Me Away From Here, I'm Dying - Belle & Sebastian

Ooh! Get me away from here I'm dying


Play me a song to set me free

Nobody writes them like they used to

So it may as well be me

Here on my own now after hours

Here on my own now on a bus

Think of it this way

You could either be successful or be us

With our winning smiles, and us

With our catchy tunes, and us

Now we're photogenic

You know, we don't stand a chance



Oh, I'll settle down with some old story

About a boy who's just like me

Thought there was love in everything and everyone

You're so naive!

They always reach a sorry ending

They always get it in the end.

Still it was worth it as I turned the pages solemnly, and then

With a winning smile, the boy

With naivety succeeds

At the final moment, I cried

I always cry at endings



Oh, that wasn't what I meant to say at all

From where I'm sitting, rain

Falling against the lonely tenement

Has set my mind to wander

Into the windows of my lovers

They never know unless I write

"This is no declaration, I just thought I'd let you knowgoodbye"

Said the hero in the story

"It is mightier than swords

I could kill you sure

But I could only make you cry with these words"

Provérbios

- ... Quando a esmola é demais o santo desconfia. Eu já devia saber que não ia ser tudo um mar de rosas. Afinal, a árvore se conhece pelo fruto.
- É... casa de ferreiro espeto de pau. Mas como você se deixou abater assim?
- Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Furei. E depois, você sabe, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco.
- Nada como um dia após o outro, é o que sempre digo. Pelo menos a intenção foi boa...
- Ah, mas de boas intenções o inferno está cheio! Quero mais isso não.
- Tem razão. Mas, você sabe o que dizem: a esperança é a última que morre.
- Mas morre.
- Não fale assim! Quem espera sempre alcança!
- Ou cansa. Sei não. Acho que entrei num mato sem cachorro. Você que é feliz.
- Ora, que é isso! A grama do vizinho sempre parece mais verde, mas não necessariamente é.
- Pode ser. Ai, será que vou ficar nessa situação pra sempre?
- Calma, a justiça tarda mas não falha. E depois... quem com ferro fere, com ferro será ferido.
- Mas se na casa do ferreiro o espeto é de pau...
- ...
"Desilusão, desilusão...
Danço eu, dança você
Na dança da solidão..."

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Amantes

Nuvens cor-de-rosa de açúcar.
Capim verde-esmeralda.
Flores cor de jujuba
Doces como pêssego em calda
Corre o rio com a água da chuva
Sopra o vento como assobios de flauta

Borboleta voa de volta pro sul
Formiga escala meu vestido de azul

O tempo não passa
O tempo não cansa
É tempo de caça
Já vem a bonança

O sol brilha nas árvores, entre as folhas
A água brinca no rio, faz bolhas

Não quero ir embora
Já estou em casa
Não vá agora
O sol em brasa

Minhas bochechas como rosas do jardim
Afogueadas de tanto correr
Seus cabelos enroscados no capim
Assim desde o alvorecer
Sua boca inteira só pra mim
Até o anoitecer

domingo, 31 de outubro de 2010

Saudade

Está tudo escuro no meu quarto agora
Acendo uma vela e vejo seu retrato
Me sorrindo, com recato.
Me lembro de nós dois, juntos
E então me pergunto:
Por que você teve que ir embora?

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Desejo de Carnaval

Quero carnaval
Sair por aí, fantasiada
Numa alegria total
Completamente embriagada

Quero carnaval
Sorrir, cantar, pular
No bloco não tem mal
Em não saber sambar

Quero carnaval
Quero você que está aí
Tenho desejo carnal
Venha me possuir

Ah, como quero carnaval
Sentir seus braços ao meu redor
Ouvir seu urro gutural
Ah, carnaval... j'addore!

Desequilíbrio

E quando tudo parece estar
perfeitamente em seu lugar
vem você pra bagunçar
E me deixar assim, sem ar.

sábado, 23 de outubro de 2010

Ariel

Vejo borboletas por todo lugar
Você deve pensar que estou louca
Te escuto falar com sua voz rouca:
"Borboletas não sobrevivem no mar"

Eu sei, eu sei, meu amor
Borboletas precisam de ar
Mas, se você deixar,
Quero pedir um favor

É algo assim, nada a ver
Sabe, eu nunca fico com calor
E aqui eu sinto tanta dor
E é por isso que tenho pensado em ser...

Ah, e sobre as borboletas
Bem, elas me fazem perceber
Tudo o que eu quero esquecer

Tem uma grande e preta,
Ela parece mesmo saber
Que eu odeio ficar nessa água gelada e cheia de peixes e tudo o que eu queria era viver aí em cima com você.

Posso?

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Delete

- Tem dias que tudo parece errado. As palavras saem errado. Você diz o que achava que queria dizer mas na verdade não queria, não devia. E mesmo assim, diz. Porque está tudo errado. As peças não encaixam. Tem alguma coisa fora do lugar. E você fica tentando, tentando, e tentando descobrir o que está errado, mas continua errando, errando, e errando. Sabe aquilo de acordar com o pé esquerdo? Às vezes acho que é o mundo que acorda de pé esquerdo, de vez em quando. Tudo dá errado por causa do mundo, não por causa da gente. Podia ser assim, não é? Pôr a culpa nos outros é tão mais fácil... Mas não dá. Tem dia que dá tudo errado, a gente fala tudo errado, e a culpa é toda nossa. Entende? Eu não queria ter dito o que pensei que quisesse dizer, mas acabei dizendo. E agora, o que eu faço?
- Aperta o delete. E começa de novo.
- ...
(apertou o delete)
- Oi, eu só queria dizer que tava com saudade. Só isso mesmo.

sábado, 16 de outubro de 2010

Dias de Poesia

Tem dias que estou mais para a música, noutros estou mais para os livros. Hoje estou para a poesia, mas não sei bem o que isso quer dizer.

Nos dias de música, meus ouvidos só se abrem para lindas melodias e meu único desejo é correr pelos prados da minha imaginação, rodopiando, cantando e dançando os belos sons que tocam dentro de mim.

Nos dias de livros, fico bem quieta em meu quarto, decifrando em silêncio, palavra após palavra, a história do livro que estiver na minha cabeceira. Às vezes leio vários de uma vez só, me esqueço das horas, do almoço, da vida, de tudo. Nem abro a boca que é pra não quebrar o eco das palavras que flutuam no meu pensamento.

Hoje estou mais para a poesia. Nesses dias posso ficar muda ou murmurante; mas hoje estou muda. Nesses dias caminho com certa cautela, passos bem medidos, que é pra não deixar transbordar de uma vez toda a emoção que carrego no peito. Olho pras coisas e elas não parecem as mesmas (porque não são). Faço um carinho no meu gato como se acariciasse o meu amante, e meu coração dispara quando ouço seu ronronar de agradecimento.

Passeio pela casa, busco um alvo para disparar minha inspiração. Se não encontro nada, suspiro. E me contento em deitar-me junto a meus pensamentos, abraçando-os, respirando-os, vivendo-os, amando-os. Para depois esquecê-los quando chamada de volta à vida real. Me sinto uma rainha, atada à sua coroa; quero viver nos meus sonhos, mas não posso deixar de reinar minha vida.

Mas às vezes, escrevo. Hoje escrevi. Amarro com muito cuidado a poesia nas palavras, para não fugirem mais de mim. E mesmo que a realidade me chame de volta para esse mundo que pulsa, corre, e exige demais, sei que não será difícil reencontrar a leveza da poesia nas asas das palavras que escrevo. Porque elas tem asas, as palavras. As minhas tem. E voam para todos os cantos; com poesia, voam ainda mais longe.

E depois de ter voado nas asas de minhas próprias palavras, posso repousar no colo do meu sonho e suspirar, realizada, completa. Poeta.

Adoro os dias de poesia.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Depois

É engraçado! O jeito como o seu cabelo cai por cima dos seus olhos... Quero dizer, caía. Porque agora você não tem mais cabelo, e isso é engraçado. E eu também não tenho mais aquela pinta que você adorava, aquela que eu sempre detestei... E mesmo assim, olho pra você, olho pra mim... E olha só nós dois aqui de novo. Não é engraçado? Eu acho... Quem diria que depois de viagens, filhos, livros, netos, estaríamos os dois aqui, inteiros, nesse mesmo banco - você lembra que foi aqui que você me deu aquela flor quando a gente se conheceu? - nos olhando e rindo, rindo alto!, gargalhando, relembrando nossos momentos, nossas alegrias, nossas triztezas... Ah, eu sabia, eu sempre soube, eu te falei que isso ia acontecer, não falei? Falei sim... Falei que um dia quando nossos rostos desidratassem quase por completo e só restassem rugas em nossas peles frágeis, a gente ia se encontrar de novo, disse sim. E tudo ia ser mais fácil, ia ser mais alegre, mais bonito... É claro que as coisas já não são as mesmas, mas não é isso o que é bom? Pare de me contrariar, você sabe que eu estou certa... Viu, eu sempre estive certa! E nem assim você soube me ouvir... Ah não venha com isso agora, por favor. Não, não vamos falar disso. Estamos bem agora, não estamos? Vivemos nossas vidas, cada um no seu canto, não sofremos. Foi bom assim. Se podia ter sido melhor? Ah, como é que eu vou saber? Meu querido, o que já foi é passado. Não podemos aproveitar o nosso presente? Pelo menos era o que você vivia dizendo... Eu sei. Eu sei... Vamos esquecer isso, por favor... Ah. Você não consegue. Bom, eu também não esqueci o que você me fez. É claro que eu te perdoei, na época. O que mais eu podia fazer, não é mesmo? Mas eu não esqueci. Nunca esqueci. Acho que estamos quites então.
Não sei, de repente as coisas não parecem mais tão bonitas. É, acho que não mudamos tanto assim como eu pensei. Você ainda é o mesmo garoto do cabelo na cara que partiu meu coração e eu ainda sou a garota da pinta que te fez chorar. Acho que as coisas nunca mudam, não é mesmo? É, dessa vez quem estava certo era você. Mesmo depois de tanto tempo... Acho que nunca tivemos uma chance mesmo.
Está ficando tarde. Acho melhor ir embora.
O quê? Se eu ainda gosto de você? Achei que estivesse claro. Ah, mas você sempre foi um bobo, mesmo. Você ainda gosta de mim? Mesmo? Por que não falou antes? Ah, se ainda tivéssemos tempo! Você estaria encrencado por me fazer sofrer dessa maneira! Ora, mas é claro que sofri! Eu sei que só estamos tendo essa conversa há poucos minutos, mas dentro do meu peito já aconteceram as mais diversas revoluções. Você nem imagina. Ah, quer que eu te mostre? Seu bobinho! Vou pensar no seu caso... Olha o que você me faz fazer, seu velho doidinho... Pareço uma maluca falando desse jeito. A gente sempre foi meio maluco, né, nós dois? Ah, que saudade daqueles tempos... Sabe do que eu mais tenho saudade mesmo? Adivinha. Haha, acertou! Do seu cabelo. Era tão lindo...
Ah, como é engraçado. Nós dois aqui, de novo, depois de todo esse tempo. Você podia imaginar que seria assim? É, nem eu.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

de você...

De todos os livros na estante,
de todas as cartas na gaveta,
de todas as fotos do meu álbum,
de todos os poemas do meu caderno...


o livro que me deu eu gosto mais,
a carta que me escreveu eu gosto mais,
a foto sua que tirei eu gosto mais,
os poemas que fiz pra você eu gosto mais...


De tudo o que me deu eu gosto mais,
de tudo que fiz pra você gosto mais.
Tudo o que sobrou ainda me traz,
lembranças que gosto mais.

De todos os amores que amei,
de todos por quem sofri...

Você eu amei mais,
por você sofri demais...


Mas de você, não gosto mais.

sábado, 25 de setembro de 2010

Recordação

Abriu o velho álbum, algumas fotos pularam pra fora, como se quisessem respirar um pouco de ar novo, deixar aquelas páginas claustrofóbicas um pouco antes de serem trancadas lá para sempre novamente. Pegou uma das fotos, "Meu Deus, que cabelo horrível eu tinha!" e riu, deixando de lado sua cópia de quinze anos de idade. Virou as páginas, lentamente, com cuidado, a cada nova foto um suspiro, uma lembrança, uma lágrima. "Essa aqui nunca mais vi... Esse foi morar fora... Ela era doidinha, meu Deus... Ah, que saudade, por onde será que eles andam?... Nossa, eu não tinha espelho em casa? Que cabelo pavoroso..."
Ia reconhecendo os rostos, voltava para aqueles cenários, revivia tudo mais uma vez, ah, como era bom, como foi bom, que bom que tudo aconteceu... Virou mais uma página, os olhos saltaram, ficou muda, os lábios secaram, os dedos imóveis. "Eduardo!..." Passou as pontas dos dedos magros sobre o rosto do antigo namorado, na foto rindo ao lado dela, na primeira foto deles, os dois de frente um pro outro só rindo, iguais, brancos em suas camisas gêmeas (ela em sua fase de só usar camisas, femininas ou não) estampados sobre a parede branca, os cabelos negros se destacando. Sorriu, suspirou. Tomou coragem, virou mais uma página.
E várias outras versões daquela foto surgiram: Eduardo e ela no parque, na praça, na praia, na rua, no restaurante, no ônibus, em casa, no sofá, no quarto, no colégio, na festa de formatura... E junto veio a saudade, aquela nostalgia louca, aquela dor, aquela tristeza e alegria misturadas e sem lógica nenhuma. Eles nunca tiveram lógica, mesmo. Virou a última página, temerosa. Uma foto dela, só dela, sem Eduardo (fora ele o fotógrafo). Ela de costas, naquele vestido florido que ele adorava, só com a cabeça virada, olhando pra ele, nos olhos dele, sem sorrir, mas com os lábios entreabertos, como se dissesse alguma coisa. Tentou lembrar o que poderia ser, revisitou o momento, o que ela estava dizendo, meu Deus? Devia ser algo muito importante, devia ser...
Cansada, atordoada, atormentada, deixou o álbum no chão, ergueu-se com certa dificuldade apoiando-se na mobília, as mãos finas e trêmulas, a pele muito frágil, já não era assim tão jovem... Foi para o quarto, deitou-se na grande cama, o quarto todo escuro, libertou umas últimas lágrimas réfens e resolveu tirar um cochilo. Acordou horas depois, descansada, tinha sonhado com as fotos, com aquelas pessoas, aqueles momentos de sua vida, e principalmente Eduardo...
Levantou-se de súbito, voltou à sala, apanhou o álbum no chão e o abriu na última página, sentando-se no sofá. Olhou sua foto novamente, de costas, quase fora do retângulo de papel, os lábios entreabertos e seu olhar misterioso que sempre fora sua característica mais marcante. Ela sabia agora que palavras saíam da sua boca naquele momento, pelo menos naquela imagem congelada que tinha guardada: adeus, Eduardo. Porque depois daquela foto revelada, nunca mais se viram.

Só...

Torceu os dedos, mexeu no cabelo, suspirou.
- Sabe quando... Aqueles dias em que a gente só quer... Assim, tipo... Só...
Olhou. Olhou. Olharam.
- Alguém que termine as nossas frases?
Sorriu. Sorriu. Sorriram.
- É...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ciúmes

- Sou ciumenta. Não pedi pra ser, mas sou. Sabe, é uma coisa louca... De repente sobe um negócio dentro de mim... Como um fogo se alastrando muito rápido, queimando tudo o que vê pela frente. Uma raiva, um troço, uma vontade de, de... Ai, nem sei. Não fico à vontade quando pegam minhas coisas emprestadas, meus livros então, nossa, empresto com muito peso no coração. E meus amigos, minha família, como tenho ciúmes de todos eles! É só chegar alguém novo ganhando espaço rápido que tenho vontade de esganar! Como ousa roubar assim o meu lugar? Fico louca de ciúmes mesmo! É uma doença, eu sei, eu não devia ser assim... Sabe, é até ridículo, tenho ciúme de coisas que nem são minhas ou mesmo daquelas que já não são mais...
- Hum... Isso quer dizer que eu não posso pegar um pedaço do seu bolo?
- Não, não pode.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Necessidade

Sinto uma coisa dentro de mim. Uma força, uma coisa, não posso dar nome. Sei que toma conta. Vem subindo devagarzinho, bem quietinha. Começa pelos pés, e vai subindo lentamente e me tomando o corpo todo. Me domina, me alucina. Me deixa louca. Me treme toda.
Ninguém entende. Não entendem como posso gostar desse sentimento, essa coisa tão rejeitada que ninguém quer guardar dentro de si. Mas eu gosto. Eu guardo. Tenho um cantinho só pra ela. Pra coisa. Guardo ela com cuidado, ali no fundo, e sei que ela pode explodir a qualquer momento. Mas não tenho medo. Tenho necessidade. Preciso dela junto comigo. Preciso sentir o que ela me faz sentir. E ninguém entende, ninguém entende. Coisa ruim, como pode alguém gostar?
Não é que goste;  já disse, preciso. Preciso dessa coisa dentro de mim. Preciso desse sentimento que me destrói e me constrói, conforme a música. Preciso de um alvo para direcioná-lo; e assim, vivê-lo em sua intensidade. E depois do alvo selecionado, ah, como é bom deixar o sentimento escorrer! Como é necessário...
Dizem que é preciso amar. Já eu, não acredito nisso não. Acredito que é preciso odiar. E como odeio...

domingo, 19 de setembro de 2010

Duas histórias

Chovia. As gotas geladas castigavam o vidro da janela, que tremia com o vento forte que gritava lá fora. Mas ele não ligava. Dentro de casa ele sorria. Contemplava feliz as palavras que escrevera no papel. Finalmente. Ali estavam os mais belos versos que alguém jamais poderia ter escrito. Ele dedicara-se fielmente à escrita daquele poema, dia e noite. Não comera, não dormira, não fizera mais nada enquanto trabalhava naqueles versos. Mesmo durante as aulas. Tudo para se dedicar à sua obra prima. A primeira de muitas. E a mais especial de todas porque tivera a melhor fonte de inspiração que se pode imaginar para escrever aqueles versos. O poema estava perfeito. Tudo seria perfeito. Ele não via a hora de mostrar a ela o fruto de seu árduo trabalho. Ela ficaria orgulhosa, ele sabia. Ela leria suas lindas palavras, abriria aquele sorriso iluminado e lhe daria um grande abraço, e depois o tão esperado beijo. Chovia. Mas ele não se importava. Ela tinha que ler o seu poema.
 
História 1:
 
Ele pegou o papel e guardou bem dobrado dentro da bolsa. Pegou a bicicleta e foi pedalando sob a chuva torrencial em direção à casa dela, o sorriso no rosto. Chegou, encharcado, tocou a campainha. Ela abriu, surpresa. Ele não falou nada, só estendeu a folha. Ela pegou, trêmula, e leu. Ele esperou. Ela o olhou, sorriu. Devolveu. Ele esperou. Ela olhou para baixo, receosa. Depois se inclinou e beijou-lhe o rosto gentilmente. Ele não entendeu. Lá dentro, uma voz masculina chamou. Ele olhou. A figura apareceu ao lado dela, abraçando-a. Ele entendeu. Baixou a cabeça, virou as costas, sentindo pela primeira vez o frio da chuva que ainda caía. Pegou a bicicleta e voltou para casa.
 
História 2:
 
Ele segurou o papel com as duas mãos, tremendo. Caminhou até a cozinha, onde ela estava em pé, fazendo alguma coisa. Ele puxou a barra da saia timidamente, ela virou-se e o viu. Ele estendeu a folha para ela, que leu. Ele esperou, ansioso. Ela o olhou, sorriu. E o pegou nos braços num aperto gostoso. Beijou-lhe a bochecha, como ele tanto havia sonhado. Depois pegou o poema e com dois ímãs fixou na porta da geladeira. Os dois foram até a sala e comeram bolo de chocolate. Melhor recompensa não tinha.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Úlcera

Sou intensa.
Excessiva, explosiva, destrutiva.
Exagerada, emburrada, zangada.
Magoável, irritável.
Irritante.


Sou calma.
Lenta, densa, mansa.
Cansa...
Ser assim romântica, lânguida, cândida.
E boba, sonsa e tonta.
Tonta!


Sou triste.
Deprimida, magoada, sofrida,
Chorada...
Cansada.
E preguiçosa, teimosa e raivosa!


Mas sou feliz.
Alegre, contente, sorridente...
Risonha, bobona, cadente (porque caio)!
Rio, gargalho, gorgulho, borbulho...
E suspiro, respiro, transpiro, suspiro...
Suspiro...


Ah, sou umas e tantas e todas e várias!
Um pouco de tudo e tudo de um pouco
A dose certa (ou errada) para enlouqecer
"...uma úlcera prestes a acontecer"

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Portas e Janelas

Mais uma porta se fechou. Outra janela se abriu.
Quanto tempo mais até que todas as portas e janelas tenham se aberto e se fechado?
Haverão janelas e portas suficientes?
Por que não podem abrir-se ao mesmo tempo?
E o que aconteceria se todas fechassem-se na mesma hora?
Mais uma janela se abriu. E mais à frente outra porta se fechará.
Portas se fecham e janelas se abrem.
E se fosse o contrário?
Portas abrindo, janelas fechando...
Portas são mais fáceis, não precisam ser puladas.
Janelas são sedutoras, te dão um vislumbre do que está por vir.
Quando uma porta se fecha, será pra sempre?
Não existem chaves perdidas pelo caminho para reabri-las?
Gostaria de saber como é viver num mundo de portas que não se trancam e janelas fáceis de se pular.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Bateu uma saudade do carnaval...

Noite Dos Mascarados
(Chico Buarque e Maria Bethânia)

Quem é você?
Adivinhe, se gosta de mim

Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

Quem é você, diga logo
Que eu quero saber o seu jogo
Que eu quero morrer no seu bloco
Que eu quero me arder no seu fogo
Eu sou seresteiro
Poeta e cantor
O meu tempo inteiro
Só zombo do amor
Eu tenho um pandeiro
Só quero um violão
Eu nado em dinheiro
Não tenho um tostão
Fui porta-estandarte
Não sei mais dançar
Eu, modéstia à parte
Nasci pra sambar
Eu sou tão menina
Meu tempo passou
Eu sou Colombina
Eu sou Pierrot

Mas é carnaval
Não me diga mais quem é você
Amanhã, tudo volta ao normal
Deixe a festa acabar
Deixe o barco correr
Deixe o dia raiar
Que hoje eu sou
Da maneira que você me quer
O que você pedir
Eu lhe dou
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser

Jogo

Você quer brincar?
Não basta saber as regras do jogo
Se for brincar com fogo
Saiba que vai se queimar
 
Tem certeza que quer jogar?
Olhe, tome cuidado
Você vai se magoar
Esteja avisado
 
Agora, se for mesmo brincar
Não vale depois sair
Sim, você vai chorar
Mas é melhor que aprenda a rir
 
Porque pra jogar esse jogo
Tem que ter malícia
Não dá pra bancar o bobo
Não espere só delícias
 
Vai doer, você vai ver
Vai machucar, vai te arrasar
Você vai sofrer. Pra valer.
Mas se souber brincar, vai se vingar.
 
E então? Quer jogar?

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Beija-Flor quer passear

(...)
Seja como for
A vida continua
Vou de flor em flor
E um dia encontro a sua

Sem deixar de seguir meu caminho
Sem deixar de querer seu carinho.

(Mas quanto a eu e você,
isso depois a gente vê.
Agora só quero mesmo viver
e brincar de te esquecer)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Cores que vou pintar

De lá trouxe lembranças, sorrisos, cheiros
E deixei saudades, marcas, beijos
Trouxe pra cá alegrias, abraços, desejos
E lá larguei tristezas, mágoas e dores
E agora de todas as cores
Quero pintar minha nova vida
Deixar pra trás as feridas
E só pensar em coisas bem coloridas
Mudar um pouquinho de tudo
E ver como vai ficar
Me transformar
Sem alterar a essência, contudo
Apenas uns retoques aqui e ali
Quem sabe até algumas pinceladas
Um pouco mais ousadas

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Tapa na cara

- ... Pior que estar dividida entre uma coisa e outra; é estar dividida entre nada e coisa nenhuma. A angústia é tão grande que você nem sabe o real motivo dela existir. Talvez o motivo seja o medo de descobrir que entre nada e coisa nenhuma não há escolha possível. Na verdade, nunca houve a opção de escolher entre um e outro, pois ambos não existem. E por isso vem a angústia. Porque é verdade, e você sabe. Só não quer enxergá-la. Não quer enxergar que inventou um universo de possibilidades irreais. Um universo de mentiras que parecem verdade. Mas quando você pára e vê... Vê que nada disso existe... Descobre que entre o nada e coisa nenhuma não existe saída, que era melhor nunca ter se feito essa pergunta, que era melhor ter continuado no caminho traçado e não criado um desvio...
E o pior é que você já sabe de tudo isso. Porque continua cometendo os mesmos erros. Sofrendo pelos mesmos motivos. Você não muda, não é mesmo? Parabéns. Ganhou o prêmio de sofredora do ano. E agora? O que vai fazer com isso? Vai continuar suspirando de angústia ou vai tentar mudar alguma coisa?
- Vou mudar...
- Muito bem. Agora pára de chorar e vá fazer alguma coisa de útil com sua vida. Quem sabe, vivê-la.
- É uma boa ideia... Sabe, da próxima vez... É melhor me dar logo um tapa na cara. É menos doloroso.
- Talvez. Mas de que adiantaria? Você não ia aprender, não é mesmo?
- Tem razão...
Limpa as lágrimas. Deixa a angústia de lado. Sai de casa, e vive sua vida.

Entre lembrar e esquecer

Foi tão rápido e tão vago que se não fico me lembrando a cada instante, quase esqueço que de fato aconteceu. E aconteceu mesmo? Ou foi apenas um sonho, mais um delírio para compor minha realidade imaginária?
Por outro lado, nem sei se é bom mesmo continuar lembrando. Não foi nada, na verdade. Aliás, nunca foi nada, não é mesmo? Melhor esquecer. Guardar numa caixa bonita e deixar escondido lá no fundo, num cantinho empoeirado. E talvez um dia, daqui a tantos anos, reabrir a caixa e verificar com alívio a concretização de um desejo passado.
E talvez... Talvez a profecia se cumpra e aquela caixa possa sair do canto empoeirado, receber nova pintura e poder abrigar as novas memórias que Vou tratar de esquecer... Pra quando lembrar, ter uma grande surpresa e poder rir e me deliciar com a descoberta.
Terei minha felicidade clandestina. Como naquele conto da Clarice.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Sobre Eternidade

Andei relendo uma crônica da Clarice Lispector, "Medo da Eternidade", com alguns amigos. Mais de 24 horas depois, o tema voltou a passear por meus pensamentos, numa conversa com outro amigo.
Aprendemos com a vida que tudo tem prazo de validade. Comida, bebida, cosméticos, remédios, relacionamentos, palavras (quem diz que palavras são eternas, deve pensar sob um outro aspecto: palavras são ditas e não se pode voltar atrás, é verdade; mas elas podem perder o sentido com o tempo, e aí por isso tem validade), sentimentos... Ora, até a própria vida.
Então significa que estamos acostumados com o fim das coisas? É claro que não... O prazo de validade é um fato, mas quem disse que é pra gostarmos disso? Então devemos idolatrar a eternidade, tão rara e efêmera? Não necessariamente...
Como Clarice diz na crônica, o chiclete dura para sempre, mesmo depois que o gosto doce já passou e só restou o grude azedo. Ele é eterno, não acaba nunca, mas não significa que ainda é prazeroso. Veja bem, não digo que a eternidade precisa ser amarga e que tudo o que é bom precisa ter um fim (embora às vezes seja isso mesmo).
Na verdade, o que eu queria dizer aqui é outra coisa. É sobre a duração das coisas sim, mas não em toda a existência delas; é sobre a eternidade em cada momento.
Momentos que são tão prazerosos que mesmo muito depois de já terem passado, tornam-se eternos pela lembrança que deixam. Momentos que podem nunca mais se repetir, e que precisam ser, portanto, eternizados de alguma forma. Momento é coisa tão efêmera que se não for eternizado, passa, é esquecido em seguida e deixa de ter a importância que tinha.
Já quis muito que alguma coisa durasse pra sempre, como todo mundo, e assim também já almejei a vida eterna. Mas olhando pelos aspectos negativos da eternidade, como faz Clarice na crônica, percebo que não quero nada disso de fato. Quero sim viver momentos maravilhosos, conhecer pessoas e lugares encantadores, escrever sobre tudo o que me dá vontade e ser reconhecida por isso.
Nada de lamentar que alguma coisa poderia ter durado mais ou menos, ou que não precisava ter acabado. Tudo dura o que tem que durar, cumpre seu prazo de validade eventualmente. Mas se a alegria se mantém a mesma ao revisitar aquele momento, sem arrependimentos nem mágoas, é só o que importa. O momento já está guardado. Já está eternizado. Pra quê desejar que tivesse durado mais ou menos? Voltar ao passado está fora de cogitação, e se não agradou, não merece a eternidade, pronto.
Pra alguns, só momentos muito específicos merecem a eternidade. Pra mim, bom mesmo é eternizar cada uma das coisas boas que se vive, sem uma hierarquia obrigatória, num caderno de lembranças que vai sendo atualizado a cada novo dia, a cada nova experiência prazerosa.
Assim, as coisas se tornam eternas, ainda que respeitando as regras do prazo de validade. Mas sem amarguinho no fim.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Relato de um fato imaginário com resquícios de vinho tinto

Aconteceu. Não lembro bem se foi no meio das escadas ou dentro do elevador; não importa, na verdade. Só sei que com certeza foi em um desses dois espaços de transição, como sempre imaginei que seria, bem no meio, entre uma coisa e outra (que no fundo, não é uma coisa, nem outra).


Mas gostei assim mesmo. Desse ser e não-ser. Dessa certeza e incerteza. Desse amar e não-amar. Desse meio-termo que inventamos desde o início, “pra não complicar”.

No fim, sei que aconteceu. Enfim. E não sei se foi bom ou ruim. Se foi melhor ou pior. Se cumpriu as expectativas. O que importa, de verdade, é que já não é mais alguma coisa imaginária, impraticável, indizível, impossível.


Pronto. Aconteceu.


E agora? E agora… Agora nada. Agora espera. Agora deixa. Agora já foi.

Já passou…

Mas se passar de novo, não faço objeção.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A gente até se parece

Olha eu aqui, olha você aí.

A gente até se parece

mesmo sem sem se parecer.

Eu com minhas piadas prontas,

Você com seu riso de escárnio.

Minhas unhas roídas e pela metade,

as suas compridas e pintadas de vermelho.

Eu aqui te olhando,

Você aí vira os olhos e fecha a cara.

E mesmo agora, lendo este bilhete

Eu sei que você pensa "que idiota que ele é"

Porque ainda não citei nenhuma semelhança.

Mas sabe, a gente se parece sim.



Porque eu aqui e você aí,

nós dois estamos sozinhos.

Nós dois precisamos de carinho.

Então, vai parar de me rejeitar

e vir comigo dançar?



Se depois dessa rima você não se animar,

juro que não te importuno mais.



Ela riu pela primeira vez naquela noite, alisando o guardanapo amassado. Olhou naqueles olhos negros que a miravam de longe, sorrindo. Aqueles olhos que ela conhecia tão bem, mas tanto relutava em encarar. E o dono daqueles olhos, que ela tanto insistia em insultar, agora só queria vê-lo seus lábios beiijar. Atravessou a pista confiante ao seu encontro. Deram-se as mãos e começaram a dançar.

domingo, 4 de julho de 2010

Então...

Então. Estou aqui. Será que você me vê do jeito que eu te vejo? Porque, meu bem, desde aquele beijo... Fiquei tão atordoada, e agora estou aqui. Parada.

Será que hoje vai chover? Acho que estava chovendo naquele dia. Será que só acontece quando chove? Se for... sempre achei que beijo na chuva era melhor mesmo Ah, é verdade, ainda não sei se vai acontecer.

Então. Estou aqui. Te esperando. Não demora não, ta? Se não a chuva passa, e aí... Aí a gente acorda e esquece de tudo o que aconteceu. E aí acaba.

Então... Estou aqui.
Só esperando você.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Heartbreaker

Eu sentia o seu perfume do outro lado da pista de dança. Eu via os olhares que você me lançava, e depois como mexia no cabelo e fingia rir, desviando o olhar, só pra disfarçar. Eu sabia que você me queria. Sabia que não havia mais ninguém e que você tinha colocado aquele vestido preto justo só pra mim. Eu sabia de tudo isso, mas ignorava. Ou pelo menos tentava ignorar.

Porque você nunca foi mulher de ser ignorada. E era por isso que você me provocava daquele jeito. Você sabia que eu era incapaz de resistir ao seu olhar de assassina de corações, de heartbreaker. Porque era isso o que você era. O que você fazia. Você seduzia e colecionava corações de homens como eu. Completamente indefesos diante do seu sorriso charmoso e da doçura das suas palavras. E depois de apaixonar cada um desses corações, cansava-se da brincadeira e simplesmente livrava-se deles, desfazendo-os em pedaços tão pequenos que depois era quase impossível colocar tudo de volta no lugar. E nunca ficava totalmente bom.

Mas naquele dia, não, naquela noite... Naquela noite eu te ignorei. Ignorei até você se cansar. Até você se irritar. Até você me olhar daquele jeito molhado, quando seus olhos já não aguentam mais segurar as lágrimas, e sair da festa, sozinha, quase correndo, sem dar explicação.

E quando eu fui atrás e te encontrei lá fora, encolhida de frio, sentada quase agachada no meio-fio, tentando consertar a maquiagem borrada no espelhinho portátil, você me viu no reflexo, me viu atrás de você, e fechou o espelho com tanta violência e se virou pra mim de um jeito tão assustado que parecia que eu é que era o assassino nessa história. E então você soltou um suspiro e anunciou minha vitória, com a boca amarga. Eu peguei seu rosto em minhas mãos e disse pela milésima vez que aquilo não era uma competição, que não tínhamos apostado nada. Na verdade, me corrigi, tínhamos apostado tudo, mas os dois tinham saído vencedores. E quando você me olhou daquele jeito infantil de que entende mas que não acredita no que ouviu, eu sorri e acariciei sua bochecha com o polegar. Então você sorriu e socou de leve o meu ombro, mas antes que isso levasse a uma guerra de tapas e cosquinhas, eu te beijei.

E nenhum de nós teve seu coração despedaçado.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Romance de Hollywood

Ele ficou na chuva, esperando. Ela partiu e o deixou ali, só, ensopado daquela água que ele tanto odiava. Ela que fora sua companheira por tanto tempo. Com quem dividira a cama nas noites frias. E agora ela o jogara fora como a um outro qualquer. Num beco sujo. Na chuva. Completamente molhado até o último pêlo ruivo.
 
Começara a se conformar com a nova triste realidade, até que ouviu sua voz. A voz dela o chamando de volta. Ela vinha correndo, na chuva, tão molhada quanto ele. E ela gritava seu nome, procurava-o entre os latões de lixo e as caixas de papelão daquele beco imundo. Ela chorava, ele sabia que não era só a chuva caindo pelo seu rosto. Eram as lágrimas sinceras do amor que sentia por ele. Então ele se revelou, chamou por ela também na única nuance de voz que conhecia. Ela o viu e sorriu. Correu para ele e o pegou em seus braços, apertando forte e o envolvendo com a capa de chuva enquanto repetia seu nome com ternura.
 
O sofrimento tinha passado.
Podiam pertencer um ao outro enfim.
Estavam juntos novamente.
O gato e sua dona.
 
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*Inspirado na cena final do filme Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's).

domingo, 27 de junho de 2010

Nem isso nem aquilo

Hoje estou assim:
nem frita, nem assada.
talvez um poquinho mal-passada;
demais até pra mim.

Não estou triste nem alegre;
nem sei se estou poeta.
Talvez eu esteja certa,
e então me desintegre.

É, estou assim.
Não daquele jeito;
nem desse, ou de outro.
Não tem remédio pro que sinto.
É, só estou...
assim.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Palavras Roubadas

Entrei pela janela aberta
E no seu quarto fui parar
Vi as folhas sobre a escrivaninha
A tinta ainda úmida sobre o papel:
branco, novo, cheiroso
Apanhei os escritos e guardei em minha mochila
Saltei a janela de novo e fugi

Você deu falta dos textos
Procurou suas histórias por todo lugar
Nunca pensou que alguém as pudesse roubar
E eu, quieto, mudo, sumido
Escondido lia suas palavras sem ao menos respirar

Você então descobriu
Foi até mim, correu
Me puxou pelo braço e perguntou:
"Foi você que roubou minhas histórias?"
Eu respondi "Sim, fui eu"
Você perguntou se foi por vingança
Vingança por ter me roubado as rosas
Eu respondi que não
Que tinha o mesmo fim:
ter você sempre perto de mim.

sábado, 19 de junho de 2010

Sonho

Vou fingir que ainda estou dormindo, assim ele não vai me ver.
Ahn? Quê? Não, isso não ta certo.
Ah, espera, não pode ser...
Ah, não, é sim!
Não, não é.
Mas tinha gatos coloridos e ornitorrincos gigantes...
E tinha isso e tinha aquilo...
E aí eu acordei e... era tudo verdade.
E eu pensei que estava sonhando.
Mas não era sonho, era realidade.
E agora... e agora...
Acho melhor voltar a dormir.
Me deixa, estou dormindo.
Não me acorde, estou sonhando.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Paixão por Você

O barulho era insuportável. Gritos, cornetas, batucadas, palavrões. Muita gente aglomerada em frente a tela instalada na rua para assistir o jogo de futebol, todos uniformizados, de cara pintada e cantando a vitória antes da hora. Por todo lado tinha gentes de todos os lugares, mas nenhuma daquelas pessoas era a que eu queria que estivesse perto de mim. Sozinha e espremida no meio daquela multidão, eu estava sufocando. Precisava de ar. Precisava de colo. Precisava de você.
 
Então eu saí. Não aguentei mais aquela situação. Acho que tinha sido gol, porque de repente estavam todos pulando e gritando mais alto ainda. Tive ainda mais dificuldade pra me deslocar entre as pessoas sem pisar em pés, esbarrar em braços ou derrubar copos de cerveja. No fim, eu estava longe dali. Longe daquela loucura toda que faz uma torcida apaixonada. Mas não me importava, minha paixão não era o futebol. Nunca foi. Minha paixão era você.
 
E quando andava lentamente de volta pra casa, os olhos baixos, cansados de te procurar; eu encontrei você. Parado no meio da rua, me sorrindo. Me esperando. Num instante eu estava em seus braços e não estava mais sufocando. Pude, enfim, respirar.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Solidão é uma folha caída


Solidão é uma folha caída.

Sozinha, no chão.

Todas as outras folhas ainda estão na árvore.

A que caiu primeiro é a que sofre mais.

Fica só, à espreita, à espera

que as outras também caiam.

Só pra lhe fazer companhia.


Solidão é uma folha caída.

Tão frágil em sua singularidade.

Tão singular em sua fragilidade.

Sozinha, no chão.

Longe dos galhos onde sempre viveu.

Desprotegida e simplesmente, só.


Solidão é uma folha caída.

Sozinha, no chão.

É também despedida.

De algo que nunca veio,

e você sempre esperou.


Solidão é uma folha caída.

Sozinha, no chão.

Mas uma hora as outras folhas caem também.

E fica tudo bem.

sábado, 5 de junho de 2010

If only...

- Is it a crime if I want you to be mine?
- Don't get me wrong, dear. I could never be anyone's. Nor even yours.
- So I guess this is it.
- We were never meant to be.
- I just thought we could be.


Her only mistake was to want to own somebody.
His only mistake was not to let himself be owned.
They lived their lives, and they were happy.
But one never knew how good it was like to be taken care of once in a while.
And the other carried a hole in its heart forever.
They were never meant to be. But they could have been. If they had at least tried.


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*Muito tempo sem praticar inglês deu nisso. Uma hora ele tinha que escapulir sozinho.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Rosas Roubadas

Pulei o muro da sua casa e entrei no seu jardim.
Procurei por entre folhas, ervas e flores.
Procurei alguma coisa que lembrasse você.
Encontrei suas rosas.
Vermelhas. Abertas.
Esperando por mim.
Saquei meu canivete e as colhi todinhas.
Sem piedade.
Não sobrou nenhuma.
Saí como entrei.
Na terra deixei minhas pegadas.
Não as apaguei.

Você chegou e entrou no jardim.
Procurou suas rosas, mas não estavam lá.
Elas foram roubadas.
Roubadas por mim.
Você viu minhas pegadas e meu canivete.
Seguiu meus passos pra longe dali.
Andou e andou.
E me encontrou.

Eu estava em casa.
Plantando suas rosas no meu próprio jardim.
Você perguntou porque eu as roubei.
E eu respondi:
"Queria ter você mais perto de mim."

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Palavras perdidas na noite...

E tudo é silêncio, noite, escuridão.
Sorriso triste de quem lembra feliz.
Um riso, um olhar, um beijo.
Tudo some, se esconde, se perde.
 
Onde estou, não sei ser,
quem sou eu, quem é você?
O que faz, o que traz?
Me perdi, me esqueci.
 
E tudo é noite, escuro, vazio.
Silêncio quebrado por voz musical.
Um suspiro, um afago, uma lágrima.
Tudo velado, escondido, enegrecido.
 
Que sinto agora na penumbra
que não me sinto vazia?
Que vejo agora na sombra
que não vejo de dia?
 
Mãos, dedos, toques,
Pálpebras, cílios, olhos
Boca, lábios, dentes
Música, som, voz.
 
Silêncio que canta,
silêncio que grita,
silêncio que chora,
silêncio que ri.
 
Ah, nessa noite escurecida,
ergo os braços e danço até cair.
Danço até o amanhecer,
só pra me despedir de você.

domingo, 23 de maio de 2010

"O vento vai dizer..."

E de repente tudo muda numa velocidade acachapante,
o mundo gira num instante
e tudo sai do lugar...
... E eu já não sei mais se devo
ou se quero me preocupar.
Deixo o vento me levar.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

“I’ll just keep it to myself, in the sun…”


Ando numa fase muito musical. Ultimamente as músicas de She & Him tem dito exatamente o que eu sinto e quero dizer. Aqui vão as minhas preferidas no momento:
 
- Brand New Shoes (Volume 2)
- Home (Volume 2)
- Me and You (Volume 2)
- In The Sun (Volume 2)
- Thieves (Volume 2)
 
- It’s just like you told me it’d be/It’s nothing, nothing, nothing/Nothing at all
- Uh huh, mhmm/Gonna get along without you now
- Why don’t we just sit and stare and do nothing?/Nothing at all for a while /I like the way you smile
- Well I know that you worry a lot about/Things you can’t control/There are so many things we’d like to have/But we just cannot hold
- It's hard to be ignored/When I look at you, you look so bored/My baby, my darling/I've been taking a beating
- And I know, and you know too/That a love, like ours/Is terrible news

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Lingering Still - She & Him

I like to learn things slow
I like learning a lot
I like to get it all again and in the end
You know you get what you got
I like to mean what I say
But it don't always come through
Because if I say it all again, again, again
It doesn't make it all true

And the world's like a science
And I'm like a secret
And I saw you lingering still, still
I saw you lingering still

It's all just news to me
Don't really care if it hurts
Because if I know it I won't know it
Then I know that it will only get worse
He was different at first
But then he won't understand
Because he's never going to know me
If he doesn't want to just shake my hand

And the world's like a science
And I'm like a secret
And I saw you lingering still, still
I saw you lingering still

http://www.youtube.com/watch?v=tS07ZdMD5YI

terça-feira, 11 de maio de 2010

A ausência da sua presença

au.sên.cia sf 1 Afastamento de uma pessoa do lugar em que se deveria achar. 2 Falta de assistência ou comparecimento. 3 Inexistência, falta. Antôn: presença.

[Melhoramentos, minidicionário escolar de língua portuguesa]

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Nesse dia tão frio e hostil sua ausência se faz presente. Não é só a falta que você me faz; é o espaço que essa falta ocupa na minha vida. E é um espaço muito grande. A presença da sua ausência é tão constante quanto a ausência da sua presença é inconstante.

E nesse dia tão frio e hostil, queria que sua ausência pudesse ser menos presente. Ou que sua presença fosse menos ausente.

Em resumo: queria você aqui comigo.

domingo, 9 de maio de 2010

Só quero alguém que me abrace

Não quero planos de futuro
Nem suspiros de "ah...se..."
Só quero alguém que me abrace.

Não quero alguém que
por toda a noite ficasse
Só quero alguém que me abrace

Não me interessam flores
Ou juras de enlace
Só quero alguém que me abrace

E se você me perguntasse
Que tipo de amor eu procuro
Eu lhe diria num sussurro:
"Só quero alguém que me abrace"

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Até Parece - Marisa Monte

Até parece
Que não lembra
Que não sabe
O que passou
Não faz assim!...

Não faz de conta
Que não pensa
Em outra chance
Prá nós dois
Olha prá mim...

Não me torture
Não simule
Não me cure
De você...

Deixa o amanhã dizer!
Deixa o amanhã dizer!...

Argh.

Incrível como situações semelhantes à outras vividas anteriormente desencadeiam sensações semelhantes. Mesma pessoa; mesmo problema?. Mesma reação, mesma fuga: palavras. Um ano pode ter passado, mas ainda me sinto a mesma. E nesse caso gostaria de ser diferente. De ter mudado um pouco. Mas continuo a mesma. A mesma boba de sempre.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Garganta

Cof, cof, cof, cof, cof.
Cof, cof, cof, cof, cof.
Cof.
Cof.
Cof.
Cof.
Cof.
Cof.
Cof.
         Cof.  osse.

domingo, 2 de maio de 2010

Asa Delta

- Então é assim que você se sente quando ta aqui? - perguntou ela, finalmente desviando o olhar da paisagem lá embaixo, tão longe, tão pequenininha.
- Depende do que você quer dizer.
- Essa sensação de liberdade, de sentir o vento vindo de todos os lados, esse medo enorme de cair e ao mesmo tempo medo nenhum, as borboletas voando no estômago feito loucas, uma vontade absurda de rir e chorar ao mesmo tempo...
- É, bem isso.
 
Ficaram calados por alguns minutos. Ela aproveitava aquela sensação única de estar ali voando sobre a cidade junto da pessoa que mais a interessava no momento. Não que as outras não fossem tão importantes. Mas aquilo era algo diferente, novo, inusitado. Ela tinha que aproveitar cada instante em que estavam juntos.
 
Desejava que os cabelos não estivessem tão curtos para senti-los esvoaçando, mas contentou-se em observar os compridos cabelos dele balançando ao vento. Sorriu com a ideia de passar os dedos naquelas mexas castanhas mais tarde. Sorriu com muitas ideias. Sorriu para o sol, para o mar, para a montanha...
 
Quando puseram os pés de volta ao solo, tão logo ele os livrou do equipamento ela o agarrou e os jogou na areia branca e macia, cobirndo-o de beijos.
 
- Obrigada por hoje! Queria poder me sentir assim todos os dias! Sorte a sua poder voar assim sempre! - exclamou ela, olhando-o feliz. Ele apenas sorriu e disse:
- Eu não preciso voar pra me sentir desse jeito. Você já me faz sentir assim todos os dias. Com ou sem asas.
Ela sorriu-lhe docemente e o beijou mais uma vez. Ele tinha razão. Pra quê asas quando se está apaixonado?
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P.s.: Apaixonados não precisam de asas para voar, mas um bom para-quedas à mão é sempre útil.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Hoje é Festa

Hoje é diferente de ontem
Que era o hoje de anteontem
E que vai ser o ontem de amanhã

Hoje não quero tristeza
Hoje não quero briga
Hoje não quero dor

Hoje só quero alegria
Hoje só quero riso
Hoje só quero amor

Sei que o ontem pode ter sido triste,
mas isso não me interessa
Sei que o amanhã pode ser triste,
mas isso também não me interessa

Porque hoje...
Hoje é festa!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Nada com nada

Hoje não quero nada com o mundo.
Quero ficar soterrada sob uma montanha de lençois, colchas e travesseiros.
Hoje não quero nada com ninguém.
Quero ficar completamente só, sozinha, quieta.
Hoje não quero pensar em nada.
Quero esquecer toda a confusão que me atormenta.
Hoje não quero pensar no que que poderia ter sido.
Quero fingir que nada nunca aconteceu. Porque nada nunca aconteceu.
Hoje não quero ter que explicar nada.
Quero dizer o que sinto sem ser interpretada de maneira alguma.
Hoje não quero sonho, fantasia ou conto de fada.
Quero a realidade dura, crua e rasgada. Mais nada!
Hoje não quero nada com você.
Quero desistir de qualquer ideia louca que me tenha passado pela cabeça.
 
Cansei de sonhar, de fingir, de imaginar. Quero dormir, esquecer, fugir. Pular logo essa parte de sofrer e ir logo pra parte de seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Porque afinal nada aconteceu. Foi apenas um pesadelo muito conturbado. E ainda bem que eu já acordei.
 
E isso tudo não tem nada a ver com você. Nem com ninguém. Não tem nada a ver com nada.
 
E ponto. Final.

domingo, 25 de abril de 2010

Ação

Ela parou de andar ao lado da grade do mirante e ficou de frente para ele.
 
- Então, o que estamos fazendo?
- Achei que estivéssemos tomando milkshake.
Ela revira os olhos e o encara mais firmemente.
- Não, eu quis dizer: o que nós estamos fazendo? O que estamos fazendo?
- Ah...
Ele pára, joga o copo numa lixeira próxima e olha para ela, pensando.
- Eu não sei. Achei que estivéssemos curtindo.
- Sabe, no início parecia incrível, misterioso, mágico... Mas agora... Agora... Eu não sei de mais nada! Eu não entendo você, você não me entende... A gente obviamente não se comunica muito bem... No entanto gostamos da companhia um do outro e às vezes conversamos sobre muitas coisas...
- Você não gosta?
- Gosto... Não sei. Mas o que é isso? Sabe, o que nós somos? O que nós temos? Eu não sei pra onde estamos indo nessa história. Nem sei mais se realmente temos alguma coisa.
- Espera, é claro que nós temos alguma coisa... Mas desde o início combinamos que não colocaríamos um nome nisso...
- Eu sei. Eu sei... Mas isso me incomoda. Eu não sei o que estamos fazendo, eu e você. Não sei o que somos.
- Mas você lembra o que combinamos? De sermos pacientes? Pra não corrermos o risco de acabar nos magoando...
- Sim, eu lembro. E foi um bom plano. Mas o problema é que agora eu já estou magoada antes mesmo de termos começado.
Ela remexe os cabelos e apoia os braços na grade, encarando a cidade lá embaixo. Pausa. Ela volta a falar.
- Eu sinto que falta alguma coisa. Você não acha? Que falta alguma coisa?
 
Ele parou ao lado dela, o cotovelo apoiado na grade. Pensou. Olhou. Ela ansiava por uma resposta, olhava-o intensamente. O vento bagunçava aqueles cabelos castanhos que ela se empenhara tanto em arrumar, mas ela não ligava. Ele afastou uma mecha de cabelo e prendeu atrás da orelha. Ela continuava encarando-o, muda.
 
Durante todo aquele tempo ele esperara. Esperara que se conhecessem melhor, que ficassem amigos. Esperara pelos momentos certos para iniciar uma conversa ao telefone. Esperara pela hora certa de chamá-la para sair. Sempre esperava por uma palavra dela para ter certeza de que o que tinham era recíproco.
 
Ali, vendo-a com aquele olhar angustiado de quem já não aguenta mais tanta espera, sentiu pela primeira vez que podia começar a perder tudo isso que tinham (ou que chegariam a ter um dia). E como quem anda por dias num deserto e finalmente bebe um copo d'água, ele cansou de esperar: agiu.

sábado, 17 de abril de 2010

Ficções Favoritas

Romeu e Julieta trocando juras no balcão;
Elizabeth e Mr. Darcy dançando no salão;

Bridget e M. Darcy aos beijos sob a neve caindo;
Bonequinha de Luxo e o escritor beijando-se na chuva;

Rose e Jack num navio naufragando;
Will e Elizabeth num navio pirata se casando;

Bella e Edward dançando ao crepúsculo;
Rory e Jess conversando numa livraria;

Ariel e Eric num barquinho num lago iluminado;
Bela e Fera valsando num castelo encantado;

Lily e James brigando no jardim;
Michael e Mia num baile de escola.

Tantas histórias já vivi,
Tantos personagens já encarnei...

Mas só me interessa agora
Saber qual será minha história.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Sei lá.

Às vezes queria não sentir as coisas que sinto. Ser menos do jeito que sou. Mas se não fosse como sou, seria como, seria quem? Acho que não posso fugir de mim.
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Não tenho nada a dizer há alguns dias. Nem sei se estou dizendo algo agora. Mas eu li as coisas que ele escreveu. E pensei nas coisas que ele me escreveu. E nas coisas que eu escrevi e que escrevi pra ele. Não é que tenha sentido saudade. Mas o vazio se acentua mais nessas horas. E não é que eu queira tudo aquilo de novo. Não quero. Mas acho que a gente sempre guarda um lugarzinho praquilo que foi bom. E quando lembra, fica pensando porque acabou. A gente sabe porquê e não se arrepende. Mas fica no ar aquele "e se...?". Fica no ar, mas é só passar um vento que voa longe e a gente logo esquece e volta pra realidade, pro agora, deixa o passado onde deve ficar. E fica feliz de novo.
Então... estou esperando o vento passar.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Carta

Eu estou te vendo agora. Você pensa que não, mas eu estou. E reparando cada ínfimo detalhe que você pensa passar despercebido. Sabe aquela flor pequenininha que você desenhou no canto do caderno enquanto todo mundo copiava o enunciado do quadro? Eu vi. E vi também quando você limpou uma lágrima que escorreu do seu olho quando viu aquela imagem forte demais que o professor estava nos mostrando. Não se preocupe, ninguém mais viu sua fraqueza. Só eu. E sabe, não acho que seja mesmo uma fraqueza. Admiro muito essa sua sensibilidade. Você talvez não saiba, mas eu admiro muitas outras coisas em você. É verdade. Ah, e agora você está sorrindo. E não é pra ninguém em particular ou de alguma coisa que tenha visto. Eu sei que não é nada disso. Sei que você está sorrindo pra si mesma. Porque está feliz consigo mesma. É a sua piada interna. Adoro isso em você. Também adoro o jeito como você escreve freneticamente num caderninho enquanto todos estão fazendo outra coisa. O que eu não sei é o que você escreve, mas imagino que coloque todos os seus pensamentos ali, pra esvaziar um pouco sua mente cansada. Porque eu vejo o seu ar de cansada quando fica muito tempo quieta olhando pela janela ou para algum canto na parede. Sei que nesses momentos você divaga, viaja por vários lugares e pensa muitas, muitas coisas, e sente também, muitas coisas. E isso te cansa. Pensar e sentir. Não é problema nenhum, sabe. Acho que todo mundo se cansa disso também. Mas cada um tem um jeito de lidar com a própria alma cansada. E você lida com ela escrevendo no seu caderninho. Você agora deve estar vermelha lendo tudo isso (e saiba que você fica linda assim, envergonhada, embora eu prefira quando você se sente à vontade); mas não se preocupe, seus segredos estão a salvo comigo. Não vou espalhá-los por aí. E se você tem medo de mim porque eu sei tudo isso de você, não tenha. Não precisa ter medo de mim. Só... fique feliz. Porque eu gosto quando você fica feliz. Eu gosto de você do jeitinho que você é. Assim, tão doce, e às vezes tão triste; mas sempre misteriosa. E se você estiver se perguntando porque eu resolvi te dizer tudo isso... bem. Acho que eu não podia mais conter tudo isso dentro de mim. Por mais que eu seja capaz de guardar muitas coisas bem escondidas, isso eu já não queria mais guardar. Por isso estou compartilhando com você. Espero que não se importe.
M.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Determinação 2

,no meio de toda aquela chuva, de todo aquele caos, ruas alagadas, pessoas morrendo, carros submersos, a cidade em estado de calamidade, as autoridades aconselhando as pessoas a não sair de casa, toda aquela loucura...

... ele finalmente chega, num bote a remo, em frente à casa, bate na porta, sorrindo, ela abre, olha, espantada, feliz, chocada, sem palavras, sem reação e ele fala: Eu não disse que atravessaria rios e lagos por você?

Ela bate a porta e deixa ele lá fora, na chuva.

Determinação

,no meio de toda aquela chuva, de todo aquele caos, ruas alagadas, pessoas morrendo, carros submersos, a cidade em estado de calamidade, as autoridades aconselhando as pessoas a não sair de casa, toda aquela loucura...

... ele finalmente chega, num bote a remo, em frente à casa, bate na porta, sorrindo, ela abre, olha, espantada, feliz, chocada, sem palavras, sem reação e ele fala: Eu não disse que atravessaria rios e lagos por você?

Ela sorri, chora, se emociona e deixa ele entrar.

domingo, 4 de abril de 2010

Telefonema

- Oi, ta acordada?
- To... [bocejo]
- Desculpa, você tava dormindo... Eu ligo amanhã.
- Bobagem. Já acordei mesmo. O que é?
- Ah. Não é nada. É só... Volte a dormir, amanhã nos falamos.
- Não, diz. To ouvindo.
- É que... Ah, é bobagem...
- Fala. Agora.
- Ta bom. Vai até a janela.
- Ok... To chegando na janela... Ah!...
- É.
- É tão... Linda! Nunca vi assim, tão grande, tão redonda.
- Nem eu.
[pausa]
- Hum.
- É... Bem, era isso. Queria que você visse. Só. Pode voltar a dormir.
- Obrigada. [sorriso]
- Pelo quê, pela lua? De nada...
- Não. Por ter ligado.
- Ah... É... De nada.
- Vou dormir. Boa noite.
- Boa noite... [suspiro]

sábado, 3 de abril de 2010

Bobagens

Elas não podem ser ditas, assim me disseram. Discordo. É possível dizer tantas bobagens numa só frase! Talvez a questão seja: definir o que é bobagem e o que não é. Acho que depende do contexto. Da pessoa que fala e da pessoa que ouve. É assim com todo discurso, na verdade.
 
Mas com bobagens... É mais relativo. O que eu digo pensando ser bobagem pode soar com importâcia para outra pessoa. Ou talvez eu tire algo de extrema relevância do fundo de minha alma que, quando traduzido em palavras, soe como a maior bobagem do mundo. Bobagens são temperamentais.
 
Bobagens são coisa muito especial. Há quem pense que são apenas bobagens, mas não são não. São ricas, tão ricas! Não há nada de bobo nelas. Mas então por que são bobagens? Ora, porque... Porque quando saem de dentro da gente parecem tão frágeis. Tão indefesas. Pedacinhos de nossa alma tímidos demais para serem considerados importantes. "O que está pensando?", "Ah, nada, bobagem". É sempre bobagem. Mas nunca é de fato. Sempre é coisa importante.
 
Bobagem é aquilo que a gente diz com medo de parecer bobo. Já começa justificando: "Olha, é bobagem...". Favor não confundir com besteira ou bobeira: essas me são outra coisa que aqui não cabe explicar. Voltemos às bobagens. Bobagem é subestimada. Ninguém leva a sério. Mas deveria. Bobagens dizem muito.
 
Aliás... Concordo. Bobagens não podem ser ditas. Elas falam por si só. E as minhas dizem que há algo de muito bobo no motivo de eu ter escrito tudo isso. Mas quem disse que bobagem não tem importância? Tem bastante. E é por isso que escrevi. E me sinto assim tão boba.